SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

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CASADO, MAS NUNCA COM A MESMA MULHER

Quarenta anos. Se fosse um crime, eu já teria cumprido a pena, saído por bom comportamento e estaria gozando da liberdade condicional. Mas não, é o meu casamento com a Zulmira. Viver com uma bipolar há quatro décadas é como ser um técnico de desarmamento de bombas que, nas horas vagas, trabalha como palhaço de circo.

O problema da Zulmira não é ter duas caras; é ter um elenco inteiro da Netflix morando no mesmo corpo e não pagar aluguel por nenhuma delas.

Quando a Fase Down chega, a casa vira o cenário de um filme polonês cult, em preto e branco, com legenda existencialista. Ela se arrasta pelos cômodos como se carregasse o peso de todos os pecados da humanidade nas costas. Se eu pergunto "Tudo bem, querida?", ela me olha como se eu tivesse acabado de chutar um filhote de Golden Retriever.
— Você não entende a densidade do vácuo — ela suspira, deitada no sofá com a mesma energia de uma uva passa.
Eu, que só queria saber onde estava o controle remoto, acabo pedindo desculpas por ter nascido. A acidez aqui é silenciosa: eu viro o vilão da história só por estar respirando no mesmo ritmo que o dia exige.

Mas aí, o interruptor biônico dela liga. E o "vácuo" vira uma Supernova.

A Zulmira na mania é um perigo para o PIB nacional. Eu chego do trabalho e ela está em cima de uma escada, pintando o teto da cozinha de "Amarelo Egípcio" porque leu que isso alinha os chakras da geladeira.
— Jorge, vendi nosso jogo de jantar! — ela anuncia, radiante. — Aquela porcelana era muito burguesa. Agora vamos comer em tigelas de barro artesanais que encomendei de uma tribo no interior de Goiás. Chegam em seis meses!

Nessa hora, a acidez me sobe à garganta. Eu olho para aquela mulher que parece ter engolido uma bateria de caminhão e penso: "Onde foi parar aquela criatura que ontem não tinha forças nem para escovar os dentes?". O cartão de crédito dela tem mais cicatrizes que um veterano de guerra. Eu já aprendi a técnica: se ela começa a falar que "temos que empreender no ramo de sabonetes veganos para pets", eu escondo a chave do carro e o roteador do Wi-Fi.

O povo diz: "Ah, mas deve ser uma aventura!". Aventura é ir para a Disney; morar com a Zulmira é um teste de estresse cardíaco diário. Ela é um oceano: ou está num marasmo de dar sono ou é um tsunami que leva os móveis e o meu juízo.

Depois de quarenta anos, o amor virou uma espécie de síndrome de Estocolmo com toques de psiquiatria. Eu não a troco, claro. Até porque, com esse histórico, nenhuma seguradora aceitaria a devolução e eu já estou velho demais para aprender a lidar com uma mulher que seja "normal" — deve ser de uma monotonia corrosiva acordar e saber exatamente quem vai estar na mesa do café.

Com a Zulmira, o café nunca é só café. Às vezes é um funeral, às vezes é o lançamento de uma startup de sucos detox. Eu só bebo e rezo para que a próxima personalidade venha com manual de instruções.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 15/05/2026
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