

INSEPARÁVEIS E OPOSTOS O aroma forte do café recém-passado invade a sala, mas o vapor que sobe da xícara parece carregar o peso de palavras não ditas. Ali, naquela mesa de madeira gasta, o amor e o ódio não são opostos; são ingredientes de uma mesma mistura densa, turva e inseparável, como o leite que se perde na escuridão do grão moído. Eles caminham pela mesma estrada de terra, os pés levantando uma poeira que cega e, ao mesmo tempo, purifica. O amor é o passo que busca o encontro; o ódio é a sola que castiga o chão por cada ferida aberta no trajeto. Estão entrelaçados pelo cansaço e pela urgência de chegar a algum lugar que nem sabem se existe. À frente, o destino não escolhe lados. No horizonte, o sol começa a se desprender do chão para pairar, soberano, sobre todos. Ele não diferencia o justo do pecador, nem o beijo do grito. Sua luz doura as mãos que se apertam e as mãos que se repelem com a mesma intensidade. Sob esse brilho inclemente, percebem que a estrada é curta demais para carregar tanto peso. No fim, resta apenas o calor de um sol que observa, silencioso, enquanto as sombras das paixões se dissolvem na claridade de um novo dia. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 16/05/2026
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