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"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

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O MENINO, O COPO E A CONVOCAÇÃO

O relógio da parede — aquele com a logomarca de uma cerveja que nem existe mais — marcava seis da tarde. No Boteco do Wilson, o domingo não termina, ele agoniza lentamente entre uma porção de moela e o chiado da fritadeira.

Wilson, o proprietário, limpava o balcão com aquele pano que já viu mais história que o Museu Nacional. Na mesa do canto, o debate subia de tom. O assunto? A lista da Seleção. Mas, na verdade, o assunto era um só: o "Menino" Ney.

— O problema do Neymar — sentenciou o Seu Antenor, ajeitando os óculos colados com fita isolante — é que ele tem o tornozelo de cristal e o compromisso de um gato num canil. Vai convocar pra quê? Pra ele cair no Catar e a gente chorar em Bangu?

Marcão, o eterno otimista da camisa apertada, bateu o copo na mesa:

— Que isso, Antenor! Sem o Ney, a Seleção é um deserto de criatividade. É como o bar do Wilson sem torresmo: sobrevive, mas perde a alma. Ele vai, sim! Nem que seja pra bater falta de muleta.

Wilson parou a limpeza, encarou a freguesia e deu o veredito de quem entende de escalação e de fiado:

— Ele vai. O Neymar é igual ao meu cunhado no churrasco: ninguém convida de coração aberto, mas se ele não aparece, o povo sente falta de ter de quem falar mal.

— Mas ele fica ou vai? — insistiu o estagiário da mesa ao lado, tentando entender a geopolítica da bola.

— Ele vai, meu filho — suspirou Antenor, pedindo a saideira. — Ele vai pra ser a nossa esperança e o nosso desespero, tudo no mesmo drible. O Neymar não é um jogador, é um grupo de WhatsApp que a gente não consegue sair.

O sol se pôs atrás do depósito de gás. Na TV, o comentarista falava de "transição tática", mas no balcão do Wilson, a tática era clara: enquanto houver gelada, haverá esperança de que o Ney mude o cabelo, mas não mude o talento.

O domingo acabou como sempre: com a conta dividida por três, a polêmica multiplicada por dez e a certeza de que, se o Brasil ganhar, foi "apesar dele", e se perder, a culpa é da "vida de solteiro".

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 17/05/2026
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