SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

ENTRE O LINHO E O RELENTO

O asfalto da metrópole, quando chove, não apenas molha; ele reflete. Nas poças que se formam entre as irregularidades da calçada, o cinza do céu encontra o neon das fachadas luxuosas, criando um espelho trêmulo onde dois mundos se encaram, mas nunca se tocam.

Caminhar por aqui em uma noite fria é sentir o vento cortante que não pede licença. Ele atravessa o sobretudo de lã italiana do executivo que apressa o passo em direção ao lobby envidraçado e, com a mesma violência, fustiga o papelão úmido que serve de lençol para quem fez da marquise o seu teto. A cidade é um organismo indiferente, uma engrenagem de aço e vidro que ignora o calor humano em favor da eficiência do cronômetro.

De um lado da rua, as mansões e os prédios de arquitetura arrojada erguem-se como fortalezas. Por trás das cortinas de linho, a luz é quente, amarelada, prometendo um conforto que parece um direito inalienável. Do outro lado, debaixo da ponte que Range com o peso do tráfego incessante, a escuridão é densa. Ali, a sobrevivência é um exercício de invisibilidade.

O contraste é obsceno, mas o que mais assusta não é a diferença de saldo bancário; é a mecânica do olhar.

Observe o pedestre que passa. Ao avistar o vulto encolhido sob o plástico preto, ele não para. Não há o choque da indignação, apenas o reflexo do desvio. É um passo lateral coreografado, uma esquiva educada para não interromper o fluxo do próprio destino. O olhar, que deveria carregar o peso da compaixão, torna-se vítreo. É como se o sofrimento alheio fosse apenas um detalhe estético da paisagem urbana, um "defeito" na calçada que deve ser contornado.

A sociedade aprendeu a fechar os olhos mantendo-os abertos. Criou-se uma cegueira seletiva onde o outro — aquele que sente frio, fome e abandono — deixa de ser gente para se tornar obstáculo. A frieza da metrópole não está nos termômetros, mas na capacidade de testemunhar o abismo e seguir adiante, comentando apenas sobre como a chuva "atrapalhou o trânsito".

Enquanto a água escorre pelas sarjetas, levando consigo a sujeira do dia, a indiferença permanece impregnada nos muros altos. No teatro das sombras da metrópole, o espetáculo da desigualdade continua em cartaz, assistido por uma plateia que olha para o lado, aperta o passo e, ao fechar a porta de casa, acredita piamente que o mundo é apenas aquilo que cabe dentro do seu próprio aquecedor.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 19/05/2026
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