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"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

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Nova Iorque on the Rocks

O gelo de Brasília tem um barulho diferente. Não é o estalo honesto do boteco da esquina; é um tilintar de cristal importado, seco, que parece bater direto no fundo do seu extrato bancário. Estávamos ali, no Lago Sul, cercados por colunas de concreto e mármore, fingindo que a vida é um comercial de carro de luxo.

O Tavinho, com aquela cara de quem acaba de aprovar uma PEC polêmica, gira o copo e solta o suspiro dos mártires:

— JP, você não tem noção. Nova Iorque acabou. Tomei um dose de Macallan no Standard Hotel que me custou o PIB de uma pequena nação africana. Cinquenta dólares! Sem o serviço!

Eu olhei para ele, para aquela gravata que custa um aluguel na Ceilândia, e senti a náusea existencial de quem vive entre o dólar e o delírio. Cinquenta dólares por um líquido cor de âmbar que, no fim das contas, serve apenas para anestesiar a consciência de que somos todos uns colonizados de terno.

— Cinquenta dólares, Tavinho? — provoquei. — Você não pagou pelo malte. Você pagou pelo privilégio de olhar para o Hudson e se sentir parte da engrenagem que está moendo o mundo. Você bebeu a ansiedade de Wall Street. Aquele uísque não desce pela garganta; ele escorre pela alma como um lembrete de que o paraíso tem preço, e o câmbio é punitivo.

Nova Iorque agora é isso: um parque de diversões para adultos entediados onde a inflação é uma forma de arte. O garçom, um aspirante a ator com o queixo de herói grego, te entrega o copo como se estivesse te passando o Santo Graal. E você bebe. Bebe rápido, porque se demorar, o gelo derrete e dilui o seu investimento.

— É a ditadura do luxo, JP — ele insistiu, quase chorando sobre o amendoim japonês.

— Não, meu caro. É o recibo da nossa irrelevância. A gente vai pra lá, paga o preço de um rim por um "on the rocks" e volta contando a história como se fosse uma medalha de honra. O uísque em Manhattan é o batismo da nossa nova servidão. A gente paga caro pra ser humilhado com elegância.

Aqui em Brasília, a gente ainda tenta manter a pose. Mas no fundo, a gente sabe: o uísque mais caro do mundo não é o de Nova Iorque. É aquele que a gente toma tentando esquecer que o Brasil, esse país de ressaca eterna, nunca vai caber num copo de cristal.

Tavinho pediu outra dose. O gelo brilhou sob o lustre. E o Brasil continuou ali fora, esperando a conta chegar.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 27/05/2026
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