SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

O PIB E O PLANALTO

A gente mal pisou em junho e o grupo "Rumo ao Hexa 🇧🇷" já foi reativado. O Jorge, que passa o ano reclamando do preço da picanha, postou um Reels de uma churrasqueira profissional com a legenda: "Agendado". O Beto já mandou a planilha do bolão, com fórmulas complexas que ninguém entende, mas todos respeitam. A meta é clara: carne no ponto, cerveja trincando e o grito entalado.

— E a inflação, Jorge? — provocou o Cláudio, o "consciente" da turma, entre um gole e outro de café no intervalo do trabalho. — Viu que o dólar subiu de novo? E a reforma que não sai?

Jorge nem tirou os olhos da tela onde escalava o seu ataque ideal.
— Ô Cláudio, pelo amor de Deus. O dólar sobe, o dólar desce, e eu continuo tendo que bater cartão às oito. A economia é esse transatlântico que demora dez anos pra fazer uma curva. O jogo do Brasil é 90 minutos de uma curva só.

A verdade é que, para eles, a política virou ruído de fundo, um rádio ligado num idioma que eles entendem, mas preferem não traduzir agora. Brasília parece Marte quando o assunto é se o Neymar vai aguentar o tranco ou se o lateral-direito vai entregar a paçoca.

— Mas o país está dividido, gente... — tentou Cláudio, mais uma vez, quase por dever cívico.

— Dividido tá meu coração entre a picanha e o alcatra pro churrasco do dia 24 — retrucou Beto, sem dó. — A política a gente discute depois que a taça subir. Ou não discute. Porque, vamos ser sinceros: o governo muda, o ministro cai, a promessa caduca, e a gente continua aqui, contando as moedas pra garantir a Heineken gelada. Isso aí não muda fácil, não. É projeto pra neto.

Houve um silêncio breve, aquele peso da realidade que ameaça baixar o astral. Mas logo o som de uma notificação quebrou o gelo. Era o Jorge mandando o link da nova camisa da seleção: "Réplica tailandesa de primeira, quem vai querer?".

O mundo lá fora pode estar de cabeça para baixo, as contas podem estar no vermelho e o futuro do país pode ser uma incógnita digna de tese de doutorado. Mas, por noventa minutos, o Brasil é um país simples. Um país onde o maior problema do mundo é uma bola que bate na trave e sai.

Dane-se o PIB. Por enquanto, o que importa é o gelo não derreter antes do apito final.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 08/06/2026
Alterado em 08/06/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras