

O Café Amargo de Todo Dia O despertador não toca; ele golpeia. Cada batida do ponteiro é um prego martelado na têmpora. Abro os olhos e o teto parece mais baixo do que ontem, como se a casa estivesse cansada de sustentar nossas paredes. Ao lado, o silêncio é denso, pesado como chumbo. Não é aquele silêncio cúmplice de quem compartilha o descanso, mas a mudez de quem já esgotou todas as palavras e percebeu que nenhuma delas serviu de ponte. Arrasto o corpo até a cozinha. O cansaço agora é uma peça de roupa que não consigo tirar, um tecido áspero que irrita a pele. A paciência, essa luxúria de quem tem paz, evaporou há meses. Qualquer movimento fora do compasso — o barulho da colher na xícara, o jeito de fechar a porta — dispara em mim um alerta de irritação que morre antes de virar grito. Não tenho mais energia nem para a briga. O conflito exige um vigor que o esgotamento me roubou. Por que ainda estou aqui? A resposta não é romântica. É burocrática, sólida e fria como um contrato. Existem os compromissos. O aluguel dividido, o jantar de família no domingo, as promessas feitas a terceiros que ainda não sabem do nosso naufrágio. Sigo firme não por amor, mas por honra ao que assinei, seja no papel ou na convivência. Sou um soldado guardando uma fronteira que já foi invadida, mantendo a postura enquanto o uniforme desbota. Mas, enquanto encaro o vapor do café, sinto um frescor súbito. É a consciência do fim. Sei que o calendário está sendo riscado e que os dias de cárcere emocional estão contados. A redenção não virá como um perdão ou uma reconciliação milagrosa; ela virá como o silêncio de uma casa vazia. Consigo visualizar o momento em que a chave girará pela última vez. A liberdade já desponta no horizonte, ainda tímida, como aquele primeiro raio de sol que fura a madrugada mais escura. Sei que, em breve, não precisarei mais medir o peso dos meus passos. O novo sol já brilha lá fora, e eu só estou terminando de amarrar os cadarços para caminhar sob ele. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 10/06/2026
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