SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

SOLIDÃO A DOIS: O INQUILINO INVISÍVEL

O silêncio, que deveria ser o repouso de duas almas que se entendem sem palavras, transmuta-se em um inquilino indesejado e obeso, que ocupa todos os cômodos da casa. Não é o silêncio da paz; é o silêncio do "não dito" que apodrece.

Nesse limbo, as paredes não apenas ouvem, elas absorvem a densidade de um convívio que se tornou mecânico. Onde o diálogo deveria ser a ponte, o silêncio ergueu um muro de concreto armado. Cada olhar desviado é uma sentença de desamor; cada gesto ignorado é um degrau a mais na escada do desrespeito mútuo.

Viver assim é habitar uma redoma de vidro trincado. O barulho do prato sobre a mesa ou o som da chave na fechadura ecoam como trovões em um vazio emocional. É a percepção dolorosa de que a solidão a dois é muito mais devastadora do que a solidão de quem mora só, pois nela existe a expectativa frustrada do outro. O lar deixa de ser santuário para se tornar um campo minado, onde a paz é apenas a ausência temporária de explosões, e o silêncio, a arma mais letal de uma guerra fria doméstica.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 10/06/2026
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