

TRÊS VERMELHOS E UMA LOIRA GELADA O Boteco do Wilson estava naquele estado de graça que só uma tarde de futebol e cerveja de garrafa trincando conseguem proporcionar. Wilson, atrás do balcão, manejava o abridor de metal como se fosse um maestro regendo uma orquestra de tampinhas. No centro da mesa redonda, o troféu da vez: uma porção de torresmo que brilhava sob a luz fluorescente, cercada por copos americanos suando. — O que eu digo é o seguinte: o juiz perdeu o controle do GPS! — exclamou o Doutor, um advogado aposentado que usava o guardanapo de papel para desenhar táticas inexistentes na mesa de fórmica. O assunto não era outro. O México tinha acabado de despachar o adversário com uma garra que faria um asteca chorar de orgulho, mas o protagonista da resenha era o árbitro brasileiro. Três expulsões. Três cartões vermelhos que saíram do bolso com a rapidez de um gatilheiro do Velho Oeste. — Três, Wilson! Três! — gritou Valtinho, o eterno otimista do bairro, levantando três dedos gorduchos e lambuzados de gordura. — O homem não estava apitando, ele estava fazendo uma limpa. Parecia segurança de baile em fim de festa. — O primeiro foi justo — ponderou Seu Antenor, o mais velho do grupo, enquanto pescava um ovo colorido no pote de conserva. — Aquela entrada no mexicano foi criminosa. O rapaz quase virou um taco. — Tá bom, Antenor. Mas e o segundo? — rebateu Valtinho. — O cara só falou "ora bolas" pro juiz e recebeu o cartão na cara. O brasileiro é assim: se subir o sangue, ele expulsa até o gandula se bobear. Wilson deu uma risadinha discreta enquanto servia mais uma rodada de "loira gelada". Ele sabia que, no boteco, a regra era clara: o juiz é sempre o culpado, e a cerveja nunca é demais. — O problema — interveio o Doutor, retomando a palavra com autoridade — é que o árbitro brasileiro traz o "estilo doméstico". Ele quer ser o centro das atenções. O México ganhou na bola, mas o nosso patrício queria ganhar no grito. Expulsar três jogadores é como querer terminar o jogo mais cedo pra não perder o ônibus. A conversa seguiu animada, entre teorias da conspiração sobre o VAR e elogios ao goleiro mexicano, que, segundo Valtinho, "pegava até pensamento". A cada gol recontado, a vitória do México crescia, e os erros do árbitro se tornavam crimes contra a humanidade. No fim das contas, ali no Boteco do Wilson, o futebol era apenas o pretexto. O que importava era aquela comunhão de vozes altas, o estalar do torresmo e a certeza de que, independentemente de quem fosse expulso em campo, ali ninguém recebia cartão vermelho. No máximo, Wilson trazia a conta, mas só quando a última história já tinha sido devidamente regada. O México celebrou no estádio; o bairro celebrou no balcão. E o árbitro brasileiro? Bem, esse certamente ganharia um apelido impublicável na próxima reunião da turma. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 11/06/2026
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