

BLUES DE SÁBADO A NOITE A noite de sábado não é uma festa; é um espelho líquido refletido no asfalto. Sob a garoa fina, a cidade deixa de ser um mapa de destinos para se tornar um labirinto de ausências. O frio que corta o rosto é o único toque que se sente, uma lâmina de realidade que empurra o corpo adiante enquanto a alma, ferida e em carne viva, busca um anestésico qualquer. As luzes multicoloridas dos bares são faróis enganosos. Prometem um calor que o vidro das garrafas não consegue conter. O scotch desce puro, sem gelo, para que o fogo do álcool tente, em vão, cauterizar a amargura que transborda. Mas o copo esvazia e a solidão permanece intacta, sentada na banqueta ao lado. Perambular é o exercício de quem procura o que não se pode comprar ou pedir: o silêncio que não machuca. No fim, a redenção não está na rua deserta, mas no retorno. No recolhimento das próprias sombras, o blues assume o papel de confidente. Entre os acordes melancólicos e a segurança das quatro paredes, a dor finalmente encontra um ritmo para descansar. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 14/06/2026
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