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"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

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A SAIDEIRA DA ALMA

O céu da cidade resolvera desabar em um cinza chumbo, transformando a tarde de domingo em um cenário de filme antigo. O frio, intruso que raramente pede licença por aqui, fazia a umidade subir pelas canelas. Mas ali, na esquina onde o asfalto cede ao cansaço, o Boteco do Wilson ainda resistia, uma ilha de luz amarela e cheiro de fritura no meio do dilúvio.

Wilson, atrás do balcão, passava o pano encardido na madeira com o ritmo de quem limpa um altar. Na mesa do canto, a "saideira" já durava três rodadas. Eder, Humberto, Chico e Beto olhavam para os copos como se buscassem neles o reflexo de vidas que o tempo insistia em levar.

Eder foi o primeiro a quebrar o silêncio, o olhar perdido na rua alagada. "A gente corre tanto, né?", murmurou. Ele carregava no peito o peso do vazio da casa grande. Desde que os filhos partiram e o silêncio se instalou nos quartos, a dor de Eder era a de ser um espectador da própria história. Sentia que era um arquivo guardado numa gaveta que ninguém mais abria.

Humberto deu um gole longo e suspirou. Sua dor tinha nome: arrependimento. Lembrava-se da mulher que não soube segurar, das palavras que engoliu e das que cuspiu sem filtro. Para ele, o frio do domingo era apenas um lembrete da geada que se instalara em sua cama há anos. "O pior não é a chuva, é saber que ninguém tá esperando a gente parar de se molhar", desabafou, ajustando a gola do casaco gasto.

Chico, o mais velho, mantinha as mãos trêmulas ao redor do copo. A dor dele era física, um cansaço que vinha dos ossos, mas que nascia na alma ao perceber que o mundo lá fora falava uma língua que ele já não entendia. Chico sentia-se um estrangeiro no próprio bairro. Cada prédio novo que subia parecia um tijolo a mais no muro que o isolava do presente.

Por fim, Beto limpou a espuma do bigode. O caçula do grupo, mas o mais cético. Sua dor era a da desilusão. Trabalhara a vida toda acreditando em promessas de futuro que nunca chegaram ao portão. "A gente vira sobra de domingo, Wilson", gritou para o balcão. "Igual esse resto de torresmo."

Wilson não respondeu. Apenas trouxe mais uma rodada, por conta da casa. Ele sabia que, naquele boteco, a saideira nunca era sobre a bebida, mas sobre o adiamento do encontro com a solidão.

Lá fora, a chuva apertou. Lá dentro, os quatro amigos brindaram às suas dores, porque dividi-las, mesmo que em silêncio ou em frases soltas, era a única forma de torná-las suportáveis antes de enfrentar a noite fria que os aguardava na porta de casa.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 14/06/2026
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