SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

O NEON DAS RUÍNAS

Sob o neon pulsante que tingia o balcão de um escarlate quase febril, a cidade lá fora era um deserto de gelo e concreto. O ar-condicionado do bar duelava com o bafo quente do uísque barato. Foi ali, entre o tilintar de gelos e o silêncio pesado de quem não tem para onde voltar, que os olhares se cruzaram.

Não houve pressa. Havia apenas o reconhecimento mútuo de duas ruínas que ainda guardavam tesouros.

Ele carregava nos ombros o peso de escolhas mal feitas; ela, nos olhos, o reflexo de partidas que nunca cicatrizaram. Entre um gole e outro, as palavras começaram a fluir, não como conversas de bar, mas como confissões de altar. Trocaram dores como quem troca cartões de visita, rindo da ironia de estarem vivos em um mundo que insiste em nos apagar.

A temperatura subiu antes mesmo de saírem dali. O toque acidental das mãos sobre a madeira gasta disparou uma eletricidade que o frio da noite não conseguia dissipar.

No quarto, o contraste era absoluto. O lençol branco esperava por corpos que o inverno maltratou. Quando a porta se fechou, a solidão foi deixada no corredor. O beijo não foi apenas desejo; foi um resgate. As mãos percorriam relevos desconhecidos com a fome de quem descobre um novo continente. Havia urgência, sim, mas também uma doçura desesperada.

No emaranhado de pernas e respirações curtas, o calor emanava não só da pele, mas do encontro de duas almas que, por um instante, decidiram que não seriam vítimas. O suor brilhava sob a penumbra, e cada gemido era um protesto contra o vazio da metrópole. Naquele altar de lençóis bagunçados, eles não eram mais estranhos; eram cúmplices em um crime contra a tristeza.

Ao final, o silêncio mudou de cor. Não era mais o cinza da solidão, mas o dourado do cansaço feliz. Adormeceram abraçados, sentindo o pulsar do outro, sabendo que, embora o sol trouxesse de volta o mundo real, aquela noite lhes pertencia. Haviam roubado da vida um pedaço da alegria que ela lhes devia, e por algumas horas, foram inteiros no abraço um do outro.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 14/06/2026
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