SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

A SUBSTÂNCIA DO CAOS

As paixões humanas são o fole que mantém acesa a fogueira da nossa espécie. Desde que o primeiro hominídeo sentiu o peito arder ao olhar para o fogo ou para o outro, nada mudou na substância, apenas na escala.

Nos primórdios, a paixão era instinto de sobrevivência e posse. Era o arrebatamento bruto pelo território, pela caça e pela continuidade do sangue. O desejo era o motor que empurrava o homem para fora da caverna; uma força visceral que não pedia licença, apenas agia. O "eu quero" era um imperativo biológico.

Com o tempo, refinamos o caos. Na Antiguidade e no Renascimento, as paixões foram elevadas ao status de arte e tragédia. Passamos a nomear o que sentíamos: a glória, a luxúria, a devoção. O coração humano tornou-se um campo de batalha entre a razão e o desatino, onde grandes impérios caíam não por falta de espadas, mas por excesso de querer.

Hoje, nos dias atuais, as paixões foram digitalizadas, mas não domesticadas. Vivemos a era do "algoritmo do desejo". A paixão agora é imediata, fragmentada em telas e curtidas, mas mantém a mesma voltagem de outrora. Mudamos o suporte — da pedra para o pergaminho, do pergaminho para o pixel — mas o frio na barriga diante do desconhecido e o fogo da obsessão continuam sendo a nossa única e verdadeira constante.

No fim das contas, a paixão é o que nos impede de sermos apenas máquinas biológicas. É o erro de cálculo que torna a vida interessante

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 15/06/2026
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