SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

INQUILINOS DO IMPOSSÍVEL

O insólito não é um acidente na jornada humana; ele é a própria substância do caminho. Despertamos no breu da caverna primordial sem manual de instruções, arremessados em um teatro de sombras onde o primeiro olhar para o céu estrelado não foi de entendimento, mas de um terror reverente. O fogo que aquecia era o mesmo que devorava, e o sonho — essa primeira fresta para o impossível — ensinou ao homem que a realidade possui dobras invisíveis. Dessa fratura entre o que se vê e o que se sente nasceram os deuses, os mitos e a necessidade visceral de pintar a própria perplexidade nas paredes de pedra.

Erguemos cidades, inventamos relógios e codificamos leis na tentativa hercúlea de domesticar o caos. Criamos a ilusão do controle, mas o extraordinário rasteja sob o assoalho da nossa falsa normalidade. Ele se manifesta no relance de uma coincidência impossível, no peso de um pressentimento sem nome ou na ironia matemática do acaso. Quanto mais a ciência empurra as fronteiras da luz, mais a escuridão ao redor se agiganta, revelando que a maior das bizarrices cósmicas não está nos confins do universo, mas no espelho: somos poeira estelar que adquiriu a estranha capacidade de pensar sobre si mesma.

Essa longa vigília ao redor do incompreensível ruma, inexoravelmente, para o mesmo enigma que a inaugurou. A morte é a última e mais radical manifestação do insólito, uma fronteira intransitável onde a matéria cessa e o significado se oculta. Diante do mármore da última sepultura, o silêncio não é a ausência de resposta, mas a resposta em sua forma mais pura. Nascemos do mistério, tateamos o absurdo nos dias comuns e, ao final, o mesmo desconhecido que nos deu as boas-vindas fecha as cortinas, gravando na pedra um epitáfio que ninguém vivo sabe decifrar. Somos, do início ao fim, inquilinos do impossível.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 23/06/2026
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