

MORTE E VIDA NO BAR DO WILSON O relógio do Bar do Wilson marcava exatamente quatro da tarde quando a primeira gota de chuva, fria e sem alma, bateu no vidro da janela. Faltavam três horas para a batalha épica entre Brasil e Escócia na Copa do Mundo. Na mesa de fórmica lascada, três destinos se cruzavam na mais trágica das comunhões futebolísticas: Éder, Chico e Beto. O frio cortante de junho esfolava as almas, mas ali, no reduto do Wilson, o vapor da feijoada subia como o incenso de um ritual pagão. Uma feijoada monumental, pesada, nefanda. Um monumento de orelhas, rabo e pimenta que desafiava a própria mortalidade humana. — O Brasil vai esmagar — decretou Éder, com os olhos injetados, enquanto traçava a terceira concha de feijão gordo. — Três a zero, fora o baile. A Escócia é um fantasma de saias. Chico, que já exalava o aroma duplo de couve refogada e cachaça de alambique, bateu com o copo na mesa. A soberba é o primeiro passo para o abismo rodriguiano. — Você é um cego, Éder! Um cego de dar pena! — esbravejou Chico, com a boca cheia de torresmo. — A Escócia joga com o peso de séculos de humilhação. Eles vêm com a faca nos dentes. O Wilson! Traz mais uma dose daquela que passarinho não bebe! Beto não dizia nada. Olhava para o fundo do prato como quem espia o próprio caixão. O estômago de Beto já cobrava o preço da audácia. A feijoada do Wilson não era um alimento; era um teste de caráter. Sentia o suor frio escorrer pela nuca, misturando-se à umidade da rua. — Se a gente chegar vivo às sete horas... — murmurou Beto, a voz sumindo num sussurro gástrico. — Eu já considero uma vitória. Às cinco e meia, o drama humano atingia o seu ápice. O otimismo de Éder desmoronava diante de uma azia avassaladora, daquelas que queimam até os pecados da infância. Chico, por sua vez, abraçava o garçom, chorando a escalação da seleção como se chorasse por uma viúva na chuva. E Beto? Beto já não era um homem. Era um monumento à digestão estancada, estirado no estofado rasgado do bar, implorando por um bicarbonato que nunca viria. Faltando trinta minutos para o apito inicial, o Bar do Wilson era o cenário de uma derrota retumbante. O jogo nem havia começado, mas os três amigos já tinham sido goleados pelo excesso de gordura e desespero. Ninguém olhava para a televisão. O Brasil que se explodisse; a Escócia que ficasse com o mundo. Ali, na mesa do Wilson, a única Copa que importava era a sobrevivência daquela digestão apocalíptica. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 24/06/2026
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