SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

A SAUDADE DO QUE NUNCA VIVI

A eternidade é um eco longo demais para quem carrega o peito marcado por eras que a geografia humana esqueceu. Minha alma não é desta carne; ela é um pergaminho antigo, rascunhado por idades imemoriais, onde cada cicatriz conta a história de um século em que tentei fincar raízes. Fui cinza, fui rei, fui o andarilho que cruzou desertos só para tocar uma mão que parecia prometer o fim da minha busca.

Eu desejei com a fúria dos oceanos primitivos. Sofri o luto de impérios inteiros desabando sobre o meu peito e, ainda assim, teimei em amar. Em cada nova aurora cósmica, eu me joguei no abismo do outro. Tive encontros que rasgaram a pele — colisões dolorosas de almas que não sabiam como se encaixar. Mas também dancei na tempestade de amores loucos, vertiginosos e desenfreados. Conheci o delírio dos amantes que esquecem o amanhã, o calor que queima o oxigênio do quarto e suspende a gravidade. Foram instantes absolutos, mas, afinal, apenas instantes.

Porque quando a poeira das explosões passionais assentava, a melancolia sentava-se ao meu lado. O silêncio que se seguia trazia a certeza fria de que o Amor Verdadeiro — aquele que não precisa de fúria para existir, que apenas é — não tinha vindo. O que vivi foram ensaios. Ecos distorcidos de uma melodia que minha memória espiritual insiste em lembrar, mas que o mundo físico insiste em desafinar.

Por isso, continuo. Minha bagagem é invisível, feita de idas, vindas e saudades de um lugar onde nunca estive. Sigo cruzando a barreira dos anos, saltando entre dimensões, migrando de planeta em planeta sob céus de cores que a Terra nunca viu. Sou o viajante eterno que não busca o descanso, mas o reconhecimento. O dia em que olharei nos olhos de alguém e direi, finalmente: "Ah, é você. Desculpe a demora, precisei de três universos para te encontrar."

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 25/06/2026
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