SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

O Eco do Silêncio:

Quarenta anos não são apenas tempo; são uma arquitetura de dias, silêncios e concessões. Olho para trás e percebo a assimetria que sempre sustentou nossa estrutura: o meu amor sempre pesou mais na balança. Amar sozinho, ou amar mais, é carregar o teto enquanto o outro apenas habita a casa. O fantasma da partida, que antes era uma sombra distante no corredor, agora senta-se à mesa conosco, definitivo e sem pressa.

Dizem que alguns encontros servem para curar o que ficou pendente em outras eras. Se a nossa união foi uma quitação de dívidas do passado, o preço foi pago em parcelas de paciência e renúncia. O ciclo dessa conta parece quitado. Os frutos desse resgate — nossos dois filhos — criaram asas e hoje escrevem as próprias histórias. Cumprimos o pacto biológico e o compromisso ancestral.

Mas o que sobra quando o dever acaba?

O que resta é um cenário onde a intimidade virou uma palavra esquecida em um idioma que não falamos mais. Pior do que a ausência do toque é a chegada do desrespeito, que corrói as pequenas frestas do cotidiano. A pergunta que ecoa no vazio do peito não é mais sobre o passado, mas sobre o limite: até onde vai a dignidade de quem muito amou? O fim de uma dívida não deveria ser o início de uma sentença de solidão a dois. É hora de olhar para o horizonte vazio e redescobrir quem eu sou fora dessa moldura

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 26/06/2026
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