SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

CRÔNICAS DO BAR DO WILSON

O Wilson nem limpa mais o balcão; ele só move a gordura de um lado para o outro com um pano que já viu três governos passarem.

No Bar do Wilson, a verdade não é dita, ela é destilada entre um gole de cerveja estupidamente gelada e um pastel de vento que, milagrosamente, sustenta o estômago e a alma de cinco filósofos de calçada.

O Amor nos Tempos do Pix

— O amor acabou depois que inventaram o "visualizado e não respondido" — decretou Humberto, ajeitando os óculos colados com fita isolante. — No meu tempo, a gente esperava uma carta por duas semanas. Hoje, se a Neide não me responde em três minutos, eu já acho que ela tá no motel com o personal trainer.

— Que personal, Humberto? A Neide faz hidroginástica com as tias da paróquia — cortou Chico, rindo com dentes de ouro que brilhavam mais que o futuro do país. — O seu problema é que você manda "bom dia com florzinha" no WhatsApp. Mulher odeia emoji de gerânio, rapaz. Tem que ter atitude, mandar um Pix de cinquenta reais com a mensagem: "pro seu esmalte". Isso é romantismo moderno.

O Hexa e a Ilusão Coletiva

Gordo bateu a mão na mesa, fazendo os copos de americano dançarem. Ele acabara de traçar o terceiro ovo colorido do vidro do balcão.

— Esquece a Neide, Humberto! O foco é o Hexa. O Brasil precisa desse título. Se a gente não ganhar a Copa, o humor do brasileiro vai azedar de um jeito que ninguém mais tanka este país. Eu já comprei três cornetas e uma bandeira que prende no capô do Uno.

— Gordo, você tem trinta e oito anos e ainda acredita em Papai Noel e na zaga da Seleção? — ironizou Eder, o eterno pessimista do grupo. — O meio-campo do Brasil parece o trânsito da Marginal Tietê na sexta-feira de chuva: ninguém anda, ninguém cria, só tem estresse. A gente vai cair nas quartas de novo. Anota aí.

— Vira essa boca pra lá, Eder! — Beto finalmente se pronunciou, tirando os olhos do celular onde simulava a escalação ideal. — O técnico achou a química. O problema é que o brasileiro não tem paciência. Querem que o ponta-esquerda jogue igual ao Garrincha e defenda igual ao Cafu. Deixem os meninos jogarem!

A Política do Pão e Circo

— Menino joga bola, Beto. O que a gente tem na Seleção é um bando de milionário de cabelo platinado — resmungou Chico, mudando o rumo da prosa para o assunto que realmente move o balcão do Wilson. — Falando em paciência, vocês viram a última votação em Brasília? Os caras aprovaram aumento de salário deles em cinco minutos. Cinco minutos! Para aprovar o meu piso da aposentadoria, demorou dez anos e três infartos.

— Mas Chico, a política no Brasil é igual ao VAR — explicou Humberto, usando dois palitos de dente para ilustrar a cena. — O juiz vai lá, olha a tela por meia hora, todo mundo vendo que foi roubado, e ele vai lá e confirma o erro. A gente assiste ao absurdo em câmera lenta, alta definição, e ainda tem que aplaudir.

— Eu não voto em mais ninguém — decretou o Gordo, limpando o canto da boca com o guardanapo de papel que não absorve nada, apenas espalha o óleo. — Meu partido é o Wilson Futebol e Samba. Aqui a cerveja sobe, mas pelo menos a gente sabe para onde vai o dinheiro: direto pro fígado.

Wilson, do outro lado do balcão, soltou um grunhido que parecia uma risada, abriu mais uma garrafa e colocou no centro da mesa. No fundo, a TV de tubo ligada no canal de esportes passava os gols da rodada, enquanto o Brasil, do lado de fora da porta de aço, continuava exatamente igual: caótico, apaixonante e completamente sem conserto.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 26/06/2026
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