

A SIMETRIA DAS ALMAS No Universo-Espelho, o tecido da realidade era tecido por fios de antimatéria e burocracia quântica. Lá, a hierarquia do nosso mundo estava perfeitamente invertida, e as almas ocupavam os cargos opostos às suas inclinações originais. Anos antes de cruzarem seus destinos na Frota Estelar, as almas de Artur e Catarina habitavam a Terra original, vivendo sob o peso de ambições frustradas e rotinas sufocantes. Naquela realidade esquecida, Artur passava as noites em claro no Observatório de Atacama. Ele era um astrofísico brilhante, obcecado por decifrar os segredos das supernovas e mapear a matéria escura. No entanto, sua genialidade era obscurecida pela falta de verba e pela burocracia acadêmica que o obrigava a preencher relatórios em vez de olhar para o céu. Ele conhecia o cosmos, mas mal conseguia pagar o aluguel do seu pequeno apartamento. Catarina, por sua vez, trabalhava a poucas quadras do instituto de pesquisa de Artur. Ela passava os dias limpando mesas e anotando pedidos em um restaurante de esquina barulhento. Dotada de uma liderança natural e de uma mente estratégica impecável, Catarina organizava o fluxo caótico do salão com a precisão de um general, embora estivesse presa a uma bandeja e ao salário mínimo. O astrofísico e a garçonete cruzavam-se diariamente na hora do almoço. Ele, imerso em cálculos gravados em guardanapos de papel; ela, recolhendo esses mesmos papéis com um olhar de curiosidade reprimida. Nenhum dos dois sabia que a morte simultânea deles durante uma tempestade magnética na Terra os arremessaria para o Universo-Espelho, trocando tragicamente as suas aptidões por suas novas posições sociais. Agora, Artur era o Supremo Zelador do Grande Arquivo de Órion. Ele detestava o silêncio da sua vassoura magnética, mas sua mente ainda calculava órbitas enquanto limpava o chão. Catarina era a Directrix Suprema da Frota Estelar. Ela vestia uma farda cravejada de insígnias de nêutrons e tomava decisões que afetavam bilhões de vidas com um aceno de mão. Sua frieza militar era lendária, embora, no fundo, ela sentisse uma estranha e inexplicável vontade de organizar as cadeiras da sala de guerra em simetria perfeita. Em uma terça-feira de monção solar, Artur limpava o gabinete da Directrix quando os alarmes de dobra ecoaram. Uma fenda dimensional instável havia se aberto na periferia do sistema. Catarina olhava para as telas de dados, perdida na complexidade dos gráficos de engajamento gravitacional. Seus assessores gritavam relatórios matemáticos que ela mal conseguia processar. Artur largou a vassoura. Olhando de soslaio para o monitor principal, ele enxergou o que ninguém ali via: a fenda não era uma ameaça, mas um eco de massa colapsada. Sem permissão, ele deu dois passos à frente e tocou no painel táctil, alterando as coordenadas do escudo defletor em trinta graus. Os guardas sacaram suas armas de prótons, mas Catarina ergueu a mão, ordenando silêncio. Na tela, a fenda se estabilizou e sumiu em um flash de luz azul. O sistema estava salvo. Catarina olhou fixamente para o homem com o uniforme de faxina. Havia um brilho de genialidade nos olhos dele que não condizia com o cargo. Ela sentiu uma conexão antiga e inexplicável, como se em algum lugar do infinito, eles já tivessem trocado de papéis. — Onde aprendeu isso, Zelador? — perguntou Catarina, com a voz firme. — Nos meus sonhos, Directrix — respondeu Artur, curvando a cabeça. — Nos meus sonhos, eu me lembro de como as estrelas funcionam. Catarina sorriu de canto, sentindo o peso da coroa cósmica que carregava. — Pois de agora em diante, você limpa os dados do meu painel tático, não o chão. Preciso de mentes que sonham com o que eu não consigo entender. Em um universo de inversões, a competência oculta na alma sempre encontrava uma fresta para brilhar. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 30/06/2026
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