SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

A GEOMETRIA DO INVISÍVEL

O erro humano ao analisar o amor é confundi-lo com o espelho. Imaginamos que amar simetricamente é receber o mesmo peso, a mesma palavra, o exato gesto devolvido na mesma velocidade. Isso não é simetria; é eco. E o eco é apenas a solidão que bate na parede e volta.

A verdadeira simetria do amor opera na física das profundezas. Ela existe quando o tamanho da entrega de um se alinha perfeitamente com a capacidade de recepção e reverberação do outro. É uma assimetria formal que gera uma simetria essencial. Um oferece o silêncio que o outro precisa para transbordar; um acolhe o abismo que o outro tem medo de olhar sozinho.

Amamos simetricamente quando os nossos pesos são diferentes, mas o ponto de equilíbrio do balanço permanece estático. É a correspondência das vulnerabilidades. Eu exponho a minha fratura sabendo que ela se encaixa exatamente na cicatriz que você carrega. Não há cálculo, não há contabilidade de afetos.

A simetria perfeita ocorre no exato instante em que o eixo do "eu" se desloca para o "nós", sem que nenhuma das partes desapareça na órbita da outra. É a gravidade de dois corpos celestes: distantes o suficiente para não se destruírem, mas tragados para sempre pelo mesmo centro invisível de massa. Quem ama simetricamente não busca metade; reconhece no outro o mesmo infinito que carrega no peito.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 02/07/2026
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