

A NOITE EM QUE A CBF MATOU O DOMINGO A noite de domingo morria lentamente no Bar do Wilson, sufocada por um bafo de cerveja morna, fumaça de cigarro clandestino e o silêncio fúnebre que só o futebol desgraçado sabe parir. Na mesa de canto, quatro sujeitos mastigavam o fel da derrota. O Brasil estava eliminado da Copa do Mundo. A tragédia, consumada há horas, ainda sangrava na mesa de fórmica lascada. — O silêncio deles é um insulto à pátria! — esmurrou a mesa Alfredo, os olhos injetados de sangue, apontando para a televisão desligada. — A CBF sumiu! O presidente sumiu! Onde está a nota oficial? Onde está o pronunciamento? Nos trataram como vira-latas! Wilson, atrás do balcão, limpava um copo com um pano encardido, observando a ruína moral dos seus melhores clientes. Na estética do fracasso, ninguém ganha do torcedor brasileiro. — Você quer pronunciamento, Alfredo? — desdenhou Peixoto, um cínico de carteirinha, soltando uma baforada de desilusão. — Aquilo lá não é uma confederação, é um palácio de mármore blindado. Eles não falam com a patuléia. Eles bebem champanhe enquanto a gente engole o choro e essa loira gelada de segunda categoria. A grande ferida da noite, contudo, não era apenas a eliminação. Era o mistério financeiro que rondava o banco de reservas. — E os milhões do Ancelotti? — gritou Antenor, o mais jovem e inflamado do grupo, quase derrubando a cadeira. — Alguém precisa abrir aquela caixa-preta! Uma auditoria já! Uma devassa pública! O homem ganha uma fortuna de xeque árabe para cair nas quartas de final? Eu quero a cabeça de toda a cúpula da CBF numa bandeja de prata até amanhã de manhã! — Calma, rapaz — tuitou o velho Isaías, o único que conhecia o peso dos anos e das derrotas passadas. — O italiano é grife. Nós compramos o terno mais caro da Europa para vestir um defunto. A culpa não é do alfaiate, é de quem achou que o cadáver ainda respirava. — Não venha com filosofia, Isaías! — cortou Alfredo, a voz trêmula de puro ódio futebolístico. — É um deboche. Renovação milionária garantida antes da Copa, eliminação humilhante e agora esse silêncio covarde. Eles pensam que o Brasil é uma várzea. O Bar do Wilson silenciou por um segundo. Na calçada, o vento de fim de domingo arrastava um copo plástico vazio. Ali, naquela mesa, morria o último reduto de esperança de um país. A CBF, distante e nababesca, calava-se no seu luxo. O torcedor, no balcão da vida, pagava a conta da soberba alheia. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 12/07/2026
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