SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

GRÃOS DE SOLIDÃO

As pás do velho moinho no alto da colina rodam de forma sincronizada. Lentamente amassam os grãos. Assim é nossa vida. Há quanto tempo não se ouve um "obrigado" ou "por favor". Quanto tempo não tem um abraço sincero, um beijo carinhoso. Difícil entender esse tipo de relação. Tornaram-se dois estranhos dentro do mesmo lar. Uma frieza tumular. Um olhar gélido. Até quando?

O moinho continua seu giro indiferente ao tempo, transformando o que era sólido em poeira fina. Da mesma forma, a rotina engole os afetos quando o automatismo substitui a presença. A engrenagem da convivência segue rodando, mas o alimento da alma se perdeu. Fica o eco do silêncio, a partilha do mesmo teto e a distância intransponível de dois oceanos que se tocam, mas não se misturam. O "até quando" não é uma pergunta para o tempo responder, mas um chamado para que um dos dois decida parar as pás desse moinho de indiferença.

Eles aprenderam a flutuar pelos cômodos como fantasmas programados. Ele sabia exatamente a hora em que ela ligaria a cafeteira; ela reconhecia o som dos passos dele no corredor. Sabiam tudo sobre a rotina um do outro, mas já não sabiam nada sobre quem eram. Os anos acumularam poeira sobre as memórias felizes, soterradas pelo peso dos dias iguais. A casa, antes cheia de risos, agora ecoava apenas o tique-taque do relógio da sala, perfeitamente sincronizado com o moinho lá fora.

Numa manhã qualquer, o tique-taque foi interrompido por palavras vazias. O café está na mesa, disse ela, a voz mecânica, sem desviar os olhos da tela do celular. Obrigado, respondeu ele, num tom tão automático quanto o dela. O silêncio voltou a reinar, pesado e denso. Ele olhou para a xícara fumegante, depois para o rosto dela, procurando um vestígio da mulher por quem se apaixonara. Você se lembra de quando vínhamos aqui apenas para olhar o moinho?, ele arriscou, com a voz levemente trêmula. Ela pausou os dedos sobre a tela. Olhou para ele. O olhar era gélido, uma barreira invisível. Não me lembro nem do que jantamos ontem, Marcos. Não gaste seu tempo com o passado.

No final daquela tarde, a tempestade finalmente desabou sobre a colina. O vento forte travou as pás do velho moinho, interrompendo seu ciclo eterno. Na cozinha escura pela falta de luz, os dois se viram obrigados a se encarar sem as distrações habituais. Ali, diante do espelho da solidão compartilhada, compreenderam a verdade. O amor não morre de repente; ele morre aos poucos, na ausência dos pequenos gestos. A frieza tumular que os cercava não era culpa do tempo, mas da escolha diária de não se importarem mais. Restava saber se o silêncio daquela noite seria o fim definitivo ou o recomeço de uma nova colheita.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 22/07/2026
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