

O TAMANHO DE UM HOMEM O vento vinha do sul, cortando as esquinas como uma lâmina de barbear velha. Era sexta-feira. A cidade estava vazia, limpa de gente, restando apenas o concreto cinzento e a neblina que subia do asfalto úmido. Os postes de luz piscavam amarelos, solitários. Ele caminhava com as mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo pesado. O frio entrava pelos sapatos, mas ele não apertava o passo. Não havia pressa. Quando um homem caminha para encontrar a si mesmo, o tempo deixa de ser um rio que corre e passa a ser apenas o espaço entre um passo e outro. Uma folha de jornal molhada colou-se ao poste. Ele olhou os letreiros apagados dos bares. Em outros tempos, haveria fumaça, o som de copos estalando e homens falando sobre boxe ou mulheres. Agora havia apenas o silêncio bom da noite fria. Um silêncio limpo. Ele parou na ponte. A água do rio corria escura lá embaixo, pesada e lenta. Um homem precisa de solidão para saber o tamanho que tem. Na multidão, o reflexo se perde. Ali, no escuro da cidade deserta, ele conseguia ouvir a própria respiração. Era um som forte. Ritmado. Ele acendeu um cigarro. A chama do fósforo iluminou suas mãos calejadas por um instante, depois a escuridão voltou, mais densa. O tabaco queimava quente. O frio do mundo lá fora tornava o calor da fumaça algo real, quase sagrado. Ele não se encontrou em nenhuma resposta grandiosa. Encontrou-se no ato de resistir ao inverno, no peso dos próprios passos e na certeza de que, enquanto pudesse caminhar firme pela noite escura, ele ainda era o dono do seu próprio destino. Deu a última tragada. Jogou a ponta do cigarro no rio. O brilho vermelho apagou-se antes de tocar a água. O calor do tabaco ainda ardia no peito quando ele deixou a ponte para trás. A noite continuava fria, mas o vento parecia ter perdido a força de antes. Nas frestas do asfalto, a neblina começava a baixar, revelando a linha firme da calçada. Ele olhou para as próprias mãos. Elas não tremiam mais. O inverno da cidade era apenas um cenário, não o seu veredito. Ao longe, a luz fraca de uma padaria de esquina acendeu-se, cortando a escuridão com um tom dourado e o cheiro primitivo de pão fresco. Era o primeiro sinal do sábado que nascia. O mundo começava de novo, como sempre faz. Ele apressou o passo, não para fugir do frio, mas porque redescobriu o prazer de ter para onde ir. A caminhada valeu a pena. Ele estava vivo, inteiro e pronto para o amanhecer. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 24/07/2026
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