SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

A VILÃ PERFEITA

O despertador não toca; ele escala o silêncio como um invasor armado. São seis da manhã de mais uma segunda-feira, esse enigma do calendário que a humanidade aceitou cumprir por puro cansaço de contestar.

A segunda-feira possui uma mística própria, quase religiosa. Ela é a grande fronteira. De um lado, o reino esquecido do domingo, com seu cheiro de lençol limpo, almoço tardio e a melancolia mansa desse dia. Do outro, o abismo produtivo. Cruzar essa linha exige um rito de passagem que começa no balcão da cozinha, diante de uma xícara de café preto tão forte que poderia acordar um monumento de mármore.

Olho pela janela e a rua já se move em um ritmo de formigueiro elétrico. As pessoas caminham com o mesmo semblante: o queixo rígido de quem vai para a guerra e os fones de ouvido servindo de escudo contra o mundo. Ninguém sorri às oito da manhã de uma segunda-feira. O riso nessa hora soa como deboche ou desvio de caráter.

O mundo inteiro concorda em odiá-la. Criamos memes, inventamos expressões, culpamos o alinhamento dos planetas. Ela é a vilã perfeita porque nunca falta ao compromisso. Se o sábado é uma promessa e o domingo é uma ilusão, a segunda-feira é a mais pura, nua e cruel realidade. Ela não usa filtros.

Mas há uma beleza secreta no seu rigor. A segunda-feira é o único dia do ano que acontece cinquenta e duas vezes. Ela carrega o peso invisível de todas as nossas falsas promessas. É na segunda que a dieta começa, que a academia finalmente nos verá entrar, que o projeto engavetado será lido, que a vida, enfim, tomará prumo. Ela é o réveillon semanal do homem comum. Uma folha em branco que aceitamos com um suspiro pesado, mas ainda assim, uma folha em branco.

Se o mundo a amaldiçoa, é porque ela nos obriga a lembrar quem somos fora do casulo do descanso. Sem a segunda-feira para nos empurrar de volta ao tablado, o domingo perderia a graça e o sábado seria apenas um tédio sem fim.

Tomo o último gole do café, agora já morno. Amarro os sapatos. Abro a porta de casa e encaro o corredor. O elevador chega. Lá dentro, um vizinho me olha com os mesmos olhos semicerrados de sono.

— Bom dia — arrisco, quase num pedido de desculpas.
— Bom dia. Força aí, que hoje é segunda — ele responde, com a solidariedade típica dos condenados.

Sorrio de canto. A engrenagem começou a girar. Bendita ou maldita, o show tem que continuar.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 27/07/2026
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