O Ninho dos Estranhos
Calma, coração, calma,
Aquiete esse peito em desalinho.
Tudo no mundo é sopro, é onda,
Tudo é apenas um breve caminho.
Passa a alegria que o vento espalha,
Passa a tristeza que a alma consome,
A ansiedade que o peito estraçalha,
O riso e o choro que o tempo engole.
Você anda sofrendo demais, coração,
Carregando o peso dos últimos dias.
Um pranto mudo, uma solidão,
Nessa busca vã por simetria.
É o gosto amargo de não ser ouvido,
A dor invisível de quem se explica,
Ver o afeto perder o sentido
Na indiferença que cala e fica.
Mas o teu olhar, que a mágoa não cega,
Enxerga o vazio que o outro traz.
Quem não recebeu, o amor não entrega,
Quem nunca teve, não sabe fazer a paz.
Falta-lhe o mapa, a fala, o aprendizado,
Falta a cartilha de como acolher.
O outro lado também foi moldado
No silêncio frio de não saber.
E assim se consome a antiga aliança,
Na rotina cega que o tempo impôs.
Morreu o diálogo, ruiu a esperança,
Ficou a distância entre nós dois.
Sob o mesmo teto, a vida se assiste,
Dois mundos opostos no mesmo caminho.
A realidade mais fria e mais triste:
Dois estranhos habitando o mesmo ninho.