

O SOPRO, O VERBO E A LUZ DO MUNDO No silêncio que antecede os mundos, a Trindade — que os homens chamavam de Pai, Filho e Espírito Santo — decidiu caminhar pelas frestas da criação. Eles não vestiam coroas, mas sim a própria substância da luz, do verbo e do sopro. Desceram à Terra, mas não para os templos que os homens haviam erguido em seus nomes. Queriam ver como sua essência se refletia nas outras canções que a humanidade cantava para o Divino. Primeiro, eles se viram sob o céu da Índia Antiga. O Pai olhou para Brahma, o Criador, e sorriu ao ver o eco de seu próprio desejo inicial de dar forma ao vazio. O Filho caminhou ao lado de Vishnu, o Preservador, que descia ao mundo em avatares para resgatar a justiça, assim como o próprio Filho fizera na Judeia. E o Espírito Santo dançou no fogo de Shiva, o Destruidor e Renovador, que limpava o velho para que o novo pudesse respirar. — "Eles nos conhecem por outros nomes", sussurrou o Filho, tocando as águas do Rio Ganges. Depois, a Trindade moveu-se como o vento até as montanhas da China. Ali, não encontraram estátuas, mas um fluxo invisível e perfeito. O Espírito Santo soprou sobre os escritos de Lao Tsé e reconheceu-se no Tao, o caminho sem forma que move o universo. O Pai viu sua ordem refletida no Yang, a força clara e ativa, enquanto o Filho aceitou a mansidão do Yin, o acolhimento e a entrega. Eles compreenderam que ali, a Trindade era o equilíbrio de todas as coisas. Por fim, cruzaram o oceano e chegaram às terras da Nigéria, onde os tambores batiam para os Orixás. O Pai reconheceu sua soberania em Olodumare, o Deus supremo e distante. O Filho sorriu para Oxalá, vestido de branco, carregando a paz e a criação dos homens. E o Espírito Santo misturou-se a Oyá, o vento que move as folhas e transforma os corações. Ao final da jornada, os três sentaram-se no topo do mundo, observando a Terra girar. Não havia ciúme neles, apenas uma profunda e eterna comunhão. — "Os homens brigam por palavras", disse o Filho, olhando para as fronteiras lá embaixo. E o Espírito Santo, em um sopro de brisa leve, uniu todas as preces da Terra em uma única e harmoniosa melodia. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 09/08/2026
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