SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

É o fim do mundo, e ninguém trouxe um casaco.

O domingo agoniza na janela com aquela luz cinzenta de mercúrio batido, uma melancolia de estrogonofe frio que desce pela espinha do país. No Sul, neva. Neva uma neve paraguaia, rala, que não serve para esquiar, mas serve perfeitamente para congelar a dignidade do gaúcho que tenta tomar um mate fingindo que está em Gramado, enquanto a frieza real de uma segunda-feira de inflação bate na porta. O frio não é meteorológico, meu amor; o frio é moral. É um gelo na alma coletiva, um inverno russo de pantufas e edredom rasgado que nos pegou de surpresa entre o futebol da TV e o desespero do boleto. Amanhã é 7 de setembro. Dizem que comemoramos a nossa Independência. Será? Que independência é essa que se festeja de casaco e com medo do próprio hálito? O que nos resta é uma ressaca cívica monumental, aquela dor de cabeça moral de quem bebeu o xarope da ilusão ufanista e acordou com o estômago embrulhado pela realidade.

E enquanto o vento uiva lá fora, Brasília queima no nosso estômago.

Brasília virou um escárnio diário, uma comédia dell'arte encenada por homens de terno de corte impecável e alma de camelô. Antigamente, o deboche vinha do Congresso, aquela feira de vaidades onde deputados vendiam a mãe e entregavam o primo em nome de uma emenda parlamentar. Mas agora? Agora a berlinda mudou de endereço. O circo subiu a rampa e estacionou no Supremo Tribunal Federal. Que ironia cínica para a véspera do Dia da Pátria. Se Dom Pedro I ressurgisse amanhã nas margens do Ipiranga, montado em seu cavalo, ele não gritaria "Independência ou Morte!". Ele olharia para o horizonte de Brasília, sacaria o berrante da falência institucional e, tomado por uma diarreia histórica pior do que aquela que o acometeu em 1822, recolheria as rédeas e pediria asilo político em Portugal. O grito do Ipiranga virou um sussurro processual nos corredores de uma corte que sequestrou o destino da nação.

O STF virou o Olimpo do absurdo. O que era para ser o guardião da Constituição transformou-se num balé de vaidades jurídicas, um reality show metafísico transmitido ao vivo pela TV Justiça, onde semideuses de capa preta decidem o destino de duzentos milhões de anestesiados entre um bocejo e uma mesura em latim. Monocraticamente, inventou-se o crime de opinião retrospectiva; colegiadamente, absolve-se o óbvio e condena-se o invisível.

É um espetáculo pornográfico de hermenêutica. Eles não julgam mais leis; eles julgam o humor da República. Um ministro acorda com azia e decreta o sigilo do pensamento alheio; outro toma um café com um banqueiro e descobre uma filigrana jurídica capaz de anular dez anos de corrupção comprovada. O STF virou a nossa agência de censura e o nosso cassino particular, onde a banca sempre vence e o réu é você, que ousa pensar sem autorização prévia de sua excelência.

Amanhã haverá desfile, bandeirinhas de plástico verde e amarelo balançando ao vento frio, tanques fumegantes na Esplanada, tudo para encenar uma soberania que há muito virou fumaça de bastidor. Mas o desfile não gera orgulho; gera náusea. É a ressaca de um país que percebeu que trocou o chicote do imperador pelas algemas de veludo da toga. Independência de quem? Do cidadão que não pode mais abrir a boca sem consultar o diário oficial? Acordaremos amanhã com o gosto amargo de um patriotismo de quermesse, sabendo que a única coisa verdadeiramente livre neste país é o deboche dos poderosos.

Olho para a chuva que bate no vidro neste fim de tarde de domingo. O Brasil está ali fora, ensopado, tiritando de frio sob uma neve absurda, assistindo à distância esses deuses togados que, do alto de seus salários autofixados e suas lagostas homologadas, nos explicam — com a arrogância dos ignorantes coroados — que o autoritarismo é para o nosso próprio bem e que devemos ser gratos pela nossa "liberdade" vigiada.

Apaguem as luzes. Ou guardem as capas. Porque amanhã, no feriado nacional, a justiça não estará cega; ela estará apenas desfilando de terno novo, de ressaca de poder, piscando o olho para o privilégio enquanto nós morremos de pneumonia e perplexidade no sofá.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 06/09/2026
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