

7 de Setembro e o Grito que o Eco Não Cansa de Cobrar Amanhã o calendário nos impõe o feriado, o comércio fecha as portas e a Pátria sacode a poeira das suas velhas gravuras escolares. O brasileiro, esse eterno sobrevivente entre o boleto e a esperança, vai acordar com o eco distante de um grito dado às margens do Ipiranga, há mais de duzentos anos. Mas se Arnaldo Jabour estivesse aqui, sentado num café de esquina, olhando o trânsito caótico e o preço da gasolina, ele cruzaria os braços, soltaria uma fumaça indignada e diria: "Calma lá, meus amigos. Que independência é essa que a gente celebra de bermuda e chinelo, sem saber direito quem manda no pedaço?" Porque a nossa história, convenhamos, adora uma ópera bufa. O Brasil não nasceu de uma revolução sangrenta com o povo nas barricadas, empunhando bandeiras de liberdade absoluta. Não. Nós nascemos de uma crise de cólica de um príncipe herdeiro, montado numa besta de carga, cansado das cartinhas autoritárias que vinham de Lisboa. O "Independência ou Morte!" de Pedro I foi, no fundo, o primeiro grande "chega!" da nossa burocracia. Um divórcio litigioso onde o filho herda a fazenda, mas continua devendo ao banco inglês para pagar a indenização ao pai. O drama do Brasil é que passamos dois séculos tentando descobrir o que fazer com a tal da autonomia. Declaramos a independência do colonizador externo para, logo em seguida, nos tornarmos colonos dos nossos próprios complexos. Criamos uma elite que adora discursar sobre soberania nacional enquanto mantém os olhos fixos em Miami e as contas em paraísos fiscais. É a nossa eterna esquizofrenia tropical: o hino canta o "sol da liberdade", mas a gente corre para se esconder na sombra do primeiro salvador da pátria que aparece vendendo milagres na televisão. Comemorar o 7 de Setembro em 2026 deveria ser um exercício de lucidez, e não apenas de desfiles militares e discursos enfadonhos cheios de próclises e mesóclises vazias. A verdadeira independência não está na assinatura de um pergaminho amarelado ou no garbo das forças armadas; está na nossa capacidade de andar sem as muletas do assistencialismo demagógico e do clientelismo ancestral. Somos independentes, sim, mas ainda reféns do medo da violência urbana, escravos de uma educação que não ensina a pensar e dependentes de uma política que trata o cidadão como mero figurante de um espetáculo de mau gosto. Amanhã, quando os fogos pipocarem no céu e as bandeiras forem estendidas nas sacadas, vale a pena olhar no espelho da República. O Brasil é um gigante que teima em não acordar de um berço esplêndido que, na verdade, já está meio capengo de tanta desigualdade. O grito do Ipiranga não foi o fim de uma história, foi o começo de uma imensa nota promissória que nós, os donos atuais desse chão, ainda não conseguimos pagar. Que a gente aproveite o feriado para descansar, claro, mas também para cobrar o troco de uma liberdade que nos prometeram e que ainda nos entregam em parcelas minguadas. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 06/09/2026
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