

O RETRATO ESCARRADO DE OUTUBRO Hoje o céu resolveu vestir aquele cinza chumbo, uma garoa fina e persistente que insiste em colar na alma, um frio de rachar o verniz da nossa pretensa modernidade. Liguei o limpador de parabrisa do carro e, entre as palhetas que cruzavam o vidro, vi o retrato escarrado do Brasil contemporâneo. Nas esquinas, como cogumelos surgidos do lodo após a tempestade, brotavam os comitês eleitorais para outubro próximo. Alguns estavam às moscas, tristes como quermesse em fim de festa. Outros, medianamente habitados por burocratas do voto. Mas o que me chocou, o que me fez frear o carro e encarar o absurdo, foram os comitês lotados. Uma grande massa humana, encharcada, batendo queixo, entrando em filas indianas para se sentar em cadeiras de plástico vagabundas, sob lonas que ameaçavam desabar. Olhei para aquilo e me perguntei, com o estômago revirado: o que eles querem? O que pensam? Aliás, será que pensam? Ou será que o ato de pensar virou um luxo burguês confiscado pelo desespero? Até quando continuará assim? É o eterno retorno do subdesenvolvimento estético e moral. Essa gente se humilha, arrasta-se no barro por uma promessa de emprego de três meses, um vale-combustível, uma dentadura, uma migalha qualquer jogada do altar dos coronéis de colarinho branco. Depois, o sujeito volta para o seu barraco, a realidade bate à porta com o cobrador do carnê, o arrependimento vem avassalador. Mas aí já é tarde. O cheque em branco da soberania popular já foi compensado. O diagnóstico é doloroso, mas inescapável: a nossa cultura mental é de uma fragilidade de dar pena. Não temos cidadãos; temos uma legião de subservientes profissionais. O brasileiro médio não quer direitos, ele quer um protetor. Não quer justiça, quer um favor. É a herança maldita da casa-grande e da senzala disfarçada de democracia digital. A cultura da subserviência é o nosso verdadeiro PIB. E o mais tragicômico — porque o Brasil não é para amadores, é uma comédia pastelão escrita por um niilista — é o paradoxo econômico que se desenha na janela oposta do meu carro. Enquanto a massa se amontoa nos comitês mendigando o nada, as torres de concreto da construção civil sobem a passos largos logo atrás daquela lona política. O setor vai de vento em poupa. O dinheiro circula, os estandes de vendas estão decorados com mármore e luzes LED, há vagas abertas no mural, há cimento fresco, há tijolos empilhados. Mas as empreiteiras batem cabeça: não se acha mão de obra qualificada. Faltam mestres de obras que saibam ler uma planta, eletricistas que entendam de automação, encanadores que dominem novas tecnologias de vedação. A engenharia civil brasileira voa em direção ao futuro, mas a força de trabalho ficou ancorada no século dezenove. Ninguém quer aprender a assentar o tijolo do próprio destino econômico, porque fomos colonizados pela ideia de que é mais fácil e seguro sentar-se na cadeira de plástico do comitê, esperando o milagre da multiplicação dos peixes que algum demagogo prometeu em troca do título de eleitor. Preferimos a ilusão da esmola governamental — que nos mantém dóceis, cativos e ignorantes — à dignidade técnica do canudo de pedreiro qualificado, capaz de ditar o próprio salário num mercado sedento. O Brasil constrói prédios reluzentes de alto padrão sobre fundações de pura ignorância e dependência mútua. O empresário chora a falta de braços eficientes; o desempregado chora a falta de sorte na fila do comitê. E assim seguimos, blindados em nossos carros, assistindo à marcha dos contentores de vento, rezando para que o teto da nossa economia não desabe antes do próximo pleito. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 14/09/2026
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