

A ÓPERA DOS EGOS OCOS A pantomima togada sob o verniz do cinismo acordou a República ontem com aquela ressaca moral que já virou o café da manhã oficial do brasileiro. Olhar para a sessão de ontem do Supremo Tribunal Federal não foi apenas um exercício de paciência; foi um mergulho sem paraquedas no abismo da nossa própria empáfia institucional. Ali estavam eles, os deuses do Olimpo de Brasília, envoltos em suas capas pretas que mais parecem figurinos de um drama shakesperiano de quinta categoria, encenado por burocratas enfadonhos. Cada palavra pronunciada era um monumento à autoimportância. O STF ontem não julgou a Constituição; ele se lambuzou nela, usando o texto sagrado da democracia como guardanapo para limpar os excessos de sua própria vaidade. O espetáculo da erudição de almanaque atingiu o ápice. Ministros que se olham no espelho e enxergam uma mistura de Rui Barbosa com Churchill passavam horas desfilando adjetivos pomposos, mesclados a um latim de cursinho jurídico, tudo para mascarar o óbvio: a completa desconexão com a realidade das ruas. Enquanto o país real se espreme no transporte público e faz contas no supermercado, a corte se digladiava em torno de filigranas processuais, hermenêuticas de conveniência e picuinhas ególatras travestidas de "defesa do Estado Democrático de Direito". A sessão de ontem foi a consagração do cinismo. Um jogo de cartas marcadas onde a indignação é teatral e o humanismo é puramente retórico. Discursa-se com os olhos marejados sobre o futuro da nação, enquanto, nos bastidores, calibra-se o peso político de cada canetada. É a justiça transformada em espetáculo de entretenimento para uma elite que adora o cheiro do próprio incenso. O que assistimos foi o crepúsculo da moderação. Cada voto era um tijolo a mais na muralha que separa os semideuses togados do cidadão comum — este pobre diabo que assiste a tudo perplexo, sabendo que, no grande teatro de Brasília, ele é apenas o figurante que paga o ingresso mais caro da história. Terminada a sessão, fecham-se as cortinas, recolhem-se as capas, e o Brasil segue seu rumo, flutuando à deriva no mar de uma legalidade que só serve para os donos do poder. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 16/09/2026
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