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"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

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A TERÇA-FEIRA EM QUE A CONSTITUIÇÃO SANGROU NA CEBOLA

A noite caía sobre a zona norte, uma noite grávida de infidelidades e fumaça de espetinho. No botequim da esquina, o asfalto ainda vertia o mormaço de uma terça-feira impiedosa. Ali estavam eles, os quatro cavaleiros do apocalipse suburbano: Juarez, com a camisa entreaberta revelando o peito cabeludo e o suor da repartição; Peixoto, que trazia nos olhos o tédio de trinta anos de matrimônio; e os demais, devotos daquela mesa de fórmica lascada, o verdadeiro altar da pátria.

— O STF perdeu o pudor — decretou Juarez, esmurrando a mesa com a delicadeza de um carrasco medieval. A garrafa de cerveja, vestida com aquela preciosa e imaculada "canela de pedreiro", cambaleou, mas não caiu. O brasileiro descansa no caos, mas não derrama o precioso líquido.

Na televisão suspensa por um suporte de ferro gordo, a sessão do Supremo Tribunal Federal desfilava em silêncio. Ministros de capa preta, com o garbo de vampiros de província, gesticulavam. A legenda na tela anunciava o escândalo da vez: uma votação que rasgava a lógica e a moralidade média do homem que pega o trem das sete.

— Olhem para aquilo — sibilou Peixoto, apontando um dedo gordo, sujo de gordura de picanha. — Aquilo não é um tribunal. É um adultério institucional! A Constituição está sendo traída na nossa cara, de camisola, na cama de casal da nação!

Nelson Rodrigues saberia: o brasileiro não se choca com a corrupção; o brasileiro se choca com a falta de estilo do pecado.

O garçom, um homem de passos cansados e desilusões acumuladas, depositou o prato de ferro com o churrasco. O chiado da carne sangrando na cebola era o único som honesto num raio de três quilômetros. Juarez cravou o palito num pedaço de gordura pura. Mastigava com o rancor de quem votou no perdedor desde a Proclamação da República.

— No meu tempo — começou Juarez, a voz embargada por uma nostalgia patológica —, ministro do Supremo não tinha rosto. Era uma sombra. Hoje, não. Hoje o sujeito vai ao plenário com o mesmíssimo olhar de um cunhado que pede dinheiro emprestado sabendo que não vai pagar. É a falência do mistério!

— O que mata o Brasil é a falta de uma boa bofetada — interveio Peixoto, os olhos fixos na capa preta do relator do processo. — Antigamente, a dignidade se resolvia no cordão de calçada. Hoje, esses doutores se agridem com adjetivos em latim. O latim, meus amigos, é o biombo dos canalhas!

A cerveja descia, dourada e amarga, lavando a alma daquela mesa que já não acreditava em mais nada, exceto no poder reconfortante do colesterol. A sessão na TV atingia o clímax. Um ministro pedia vista, com o sorriso cínico de quem esconde o ás na manga em jogo de buraco de fundo de quintal.

— É a pátria de chuteiras, mas jogando contra o próprio patrimônio — suspirou Juarez, limpando o bigode de espuma. — Nós aqui, sangrando no carnê das Casas Bahia, e os deuses do Olimpo decidindo o destino do país entre um bombom de licor e um cafezinho em xícara de porcelana chinesa.

A terça-feira morria ali, entre o aroma de carvão e a constatação de que o Brasil é uma eterna peça de teatro de bulevar, onde o público sempre morre no final, mas faz questão de pedir mais uma rodada antes do pano cai

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 16/09/2026
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