SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

O Cheiro de Necrotério na República e a Nossa Mansa Perplexidade

Caminhamos a passos largos, de olhos bem abertos e mentes anestesiadas, por uma espécie de manicômio geográfico. O mundo lá fora delira em suas próprias neuroses, mas o Brasil sempre institucionaliza a sua própria demência com um requinte de crueldade que faria os surrealistas chorarem no botequim. Viramos especialistas em transformar o sagrado em profano, a ordem em chanchada, a lei em piada de mau gosto. E no centro desse picadeiro grotesco, esmagada, está a classe média brasileira — o eterno burro de carga da nação, que hoje carrega também o peso morto de sua própria impotência.

Olhem para Brasília. Olhem para as cúpulas reluzentes que deveriam abrigar a razão. O que vemos hoje é a metamorfose mais perversa da nossa história recente: o juiz que se cansou da discrição monástica do tribunal e resolveu virar semideus, legislador, imperador de suas próprias certezas. Quem foi ungido para segurar a balança com neutralidade cirúrgica, hoje usa a toga como capa de super-herói vingador, esticando os braços do poder até rasgar o tecido da realidade. É uma vaidade patológica que atropela ritos e ignora freios. Enquanto isso, o cidadão comum, aquele que acorda às seis da manhã e paga impostos escandinavos para receber serviços subsaarianos, assiste a tudo paralisado diante da televisão. Ele percebe, com um nó na garganta, que as regras do jogo mudam no meio da partida e que ele não passa de um mero espectador de um teatro de absurdos onde não tem direito a voto, nem a veto, nem a voz.

O resultado desse voluntarismo histriônico está aí, exposto na vitrine do nosso fracasso: a Constituição de 1988 virou um cadáver esquecido na calçada da história. E ninguém tem a decência de enterrar. Ela está lá, em avançado estado de putrefação, exalando o odor azedo do oportunismo jurídico. Onde deveria haver segurança, há o capricho do intérprete de plantão. Para o homem comum, essa decomposição institucional gera uma vertigem diária. É a terrível sensação de que o chão sob seus pés é feito de areia movediça. Se nem as leis máximas do país têm valor, o que garante o seu pequeno comércio, o seu emprego, a sua propriedade ou a sua liberdade? A classe média descobriu, da pior forma possível, que a justiça no Brasil virou uma loteria caríssima e arbitrária.

E enquanto o topo da República se perde nesse delírio de onipotência, o subsolo do país é cavado por uma força silenciosa e implacável. Os tentáculos do crime organizado não estão mais escondidos na favela escura; eles vestem terno, frequentam os salões acarpetados, financiam campanhas e ditam as regras do mercado. É a metástase perfeita que asfixia o cidadão de bem. Ele se tranca em condomínios fechados, paga segurança particular, plano de saúde e escola privada, financiando uma bolha de sobrevivência que ameaça estourar a qualquer momento. Ele se vê encurralado: por cima, o Estado o sufoca com a arrogância de quem deveria defendê-lo; por baixo, o crime organizado o encurrala com a audácia dos que decidiram saquear o país.

Ao brasileiro comum resta o exílio dentro da própria pátria. Um sentimento de solidão coletiva, de cansaço crônico, de quem percebe que foi transformado em refém duplo de uma elite de toga alheia à realidade e de uma criminalidade que dita o ritmo das ruas. Assistimos, de braços cruzados pelo medo e pelo esgotamento, ao desmanche de uma nação que abriu mão da sanidade, restando-nos apenas a perplexidade muda de quem já não sabe a quem recorrer.

Morremos um pouco a cada telejornal, afogados na constatação de que o Brasil não é para amadores, mas virou um banquete exclusivo para os profissionais do cinismo. No final das contas, a grande tragédia nacional não é o erro; é a nossa trágica e mansa capacidade de nos acostumarmos com o absurdo.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 16/09/2026
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