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"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

À Espera de Godot no Palco Verde-Amarelo

Em 1952, o dramaturgo irlandês Samuel Beckett chocou o mundo com Esperando Godot, obra-prima do Teatro do Absurdo que retratava o colapso do sentido, a paralisia humana e a falência da linguagem no pós-guerra. Décadas depois, ao observarmos a dinâmica social e política da nossa pátria, fica evidente que o absurdo deixou as franjas da ficção e transformou-se no nosso roteiro institucional definitivo. De espectadores de uma peça vanguardista, fomos convertidos em figurantes involuntários de um espetáculo trágico-cômico que se renova a cada amanhecer.

Na obra de Beckett, dois vagabundos, Vladimir e Estragão, passam os dias à beira de uma estrada deserta, ao lado de uma árvore seca, esperando por um homem chamado Godot. Eles não sabem exatamente quem é Godot, o que ele faz ou quando virá, mas possuem a crença cega de que sua chegada trará a salvação para suas vidas miseráveis. Na nossa realidade, Godot é a eterna promessa da pátria do futuro. Há gerações, o cidadão é convocado a suportar o presente sob a promessa de que a "próxima eleição", a "próxima reforma" ou o "próximo pacote econômico" finalmente trará a redenção nacional. A salvação é sempre um horizonte que recua à medida que avançamos.

A maior semelhança com o texto beckttiano, contudo, reside na paralisia crônica fantasiada de movimento. Ao final de cada ato da peça, os personagens tomam uma decisão clara: "Vamos embora". A rubrica do autor, entretanto, decreta a imobilidade: (Não se movem). O debate público nacional opera sob essa mesma lógica. Há uma fúria retórica sem precedentes nas redes sociais, discursos inflamados nas tribunas e uma sensação de urgência constante. Mas, quando a poeira assenta, percebe-se que as estruturas profundas do país permanecem intocadas. Movemo-nos freneticamente para continuar exatamente no mesmo lugar.

Essa imobilidade é alimentada pelo esvaziamento da linguagem, outra marca registrada do absurdo. Em Esperando Godot, os diálogos servem apenas para preencher o vazio e passar o tempo. No cenário pátrio, as palavras perderam o seu lastro com a realidade. A incompetência gerencial é rebatizada como "ajuste estratégico", o retrocesso civilizatório ganha verniz de "preservação de valores" e a crise permanente passa a ser tratada como a nova normalidade. Discute-se o acessório com a gravidade do essencial, enquanto os problemas estruturais — a árvore seca do nosso cenário — continuam desamparados.

A dinâmica de poder da obra também se reflete de forma cruel na nossa pirâmide social através dos personagens Pozzo e Lucky. Lucky carrega malas pesadíssimas cheias de areia sem jamais questionar, enquanto Pozzo o conduz por uma corda, chicoteando-o ao mesmo tempo em que discursa de forma arrogante sobre cultura e filantropia. É impossível não enxergar nessa metáfora a relação entre o contribuinte sufocado por exigências e uma elite institucional que usufrui de privilégios encastelados, justificando a exploração por meio de uma retórica de bem-estar social que nunca se materializa na ponta.

O Teatro do Absurdo pátrio é, fundamentalmente, um espetáculo de portas fechadas: a plateia não pode abandonar o recinto. Pagamos ingressos caríssimos através de impostos e somos obrigados a assistir ao desmonte do cenário. O riso que essa situação provoca já não é de divertimento, mas aquele riso nervoso e trágico de quem percebeu que as regras do jogo mudam ao bel-prazer dos diretores da peça. Enquanto o mensageiro oficial continuar a surgir no final do dia para dizer que "Godot certamente virá amanhã", continuaremos ali, parados à beira da estrada, sobrevivendo de falsas expectativas em um espetáculo que há muito perdeu o sentido.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 16/09/2026
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