

A Sutil Arte de Agradecer pelas Migalhas Sempre nos disseram que o bom cordeiro é aquele que não dorme na fila, que cumpre o horário e conhece o brilho das botas do feitor pelo reflexo no chão. O que esqueceram de nos avisar é que o rebanho aprendeu a amar o cativeiro, e desenvolveu uma gratidão doentia pela própria cerca. Há anos venho observando essa mesma colina de asfalto e concreto, onde nos movemos por puro automatismo. Se o feitor aponta o chicote para a esquerda, centenas de cabeças curvadas dobram à esquerda. Se ele joga um punhado de farelo seco no chão, o rebanho se esmaga, se pisa, se digladia pelo privilégio de colher os restos. E o que é mais assustador: ao final do dia, todos ainda se ajoelham para agradecer pelas migalhas recebidas. Olho para essa massa humana que se espreme no vagão, na fila, na meta impossível do mês, e sinto o peso esmagador da engrenagem. O cansaço fincou os dentes na minha alma. Não é apenas o cansaço do corpo; é o horror de perceber que a teia foi tão bem tecida que a própria vítima ajuda a prender os nós. Estou cansado de ver o rebanho beijar a mão que o açoita. A grande vitória do feitor foi nos convencer de que a escassez é um dom. Ele nos entrega o suficiente apenas para que não morramos de fome, mantendo-nos fracos o bastante para não conseguir fugir, mas vivos o suficiente para produzir mais. E nós, em nossa miséria domesticada, transformamos a sobrevivência em liturgia. "Obrigado pelo pão de ontem", sussurram as vozes roucas, enquanto os joelhos calejados encontram o pó. "Obrigado pela chance de sangrar mais um dia." Enquanto eles pastam de cabeça baixa, mastigando o capim mofado da falsa segurança, eu olho para o horizonte além das cercas invisíveis. Há montanhas onde o vento é livre. Há florestas onde nenhum feitor ousaria pisar. Mas o rebanho teme a floresta mais do que teme o chicote. O desconhecido apavora quem passou a vida inteira medindo a própria existência pelo tamanho da corrente. Decidi, hoje, não me ajoelhar. Guardei o meu orgulho que estava soterrado sob anos de obediência. Quando o feitor ergueu os braços para lançar a ração diária, esperando o coro habitual de preces e agradecimentos, eu permaneci de pé. Fui o único ponto vertical em um mar de corpos curvados. Um vizinho de cerca — o sujeito ao meu lado, cujo crachá ou nome já nem importam — me puxou pela calça, com os olhos arregalados de pânico. Havia uma revolta genuína no seu olhar domesticado. Ele não estava indignado com o feitor; estava indignado comigo. Minha espinha ereta era uma heresia contra o culto da submissão. "Ajoelha", ele sussurrou, desesperado, "ou ele não vai jogar nada para nós amanhã!". Eu apenas sustentei o olhar dele e recuei um passo. Deixei que disputassem o farelo. Se amanhã o feitor decidir apertar o laço, se disser que sou um elemento perigoso porque me recusei a agradecer pela minha própria miséria, que assim seja. Enquanto o rebanho continua preso na teia eterna, tecendo os fios da sua própria prisão com as linhas da gratidão forçada, eu estarei caminhando na direção oposta. Descobrindo o gosto amargo, perigoso e absolutamente impagável de passar fome em total liberdade. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 22/09/2026
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