

SUA EXCELÊNCIA, O CIDADÃO O maior ato de fé da humanidade não está registrado nos livros sagrados, nem esculpido nas paredes dos templos antigos. Ele acontece em um instante ordinário, repetido bilhões de vezes todas as manhãs: o momento em que o despertador toca e decidimos abrir os olhos. Levantar da cama, em um mundo que frequentemente parece conspirar pelo nosso retrocesso, é a mais pura e teimosa manifestação de esperança. Vencer o dia é, antes de tudo, um corpo a corpo diário contra a ignorância humana. Não a ignorância inocente da falta de instrução, mas aquela mais sombria, que escolhe a cegueira por conveniência. E essa ignorância, infelizmente, adora se vestir de gala e ocupar as cadeiras estofadas do poder. Olhamos para quem governa e, muitas vezes, o que vemos é um deserto de empatia fantasiado de burocracia. É o decreto que ignora a fome, o discurso que atropela a ciência, a soberba de quem se esqueceu de que o poder é um empréstimo do povo, e não uma herança divina. Ver a máquina pública operar na frequência do egoísmo é um convite diário ao niilismo. Dá vontade de puxar o cobertor de volta até a cabeça e declarar falência do espírito. Mas é aí que o milagre profano acontece. O cidadão levanta. Ele engole um café preto, caminha até o ponto de ônibus ou gira a chave do carro. No balcão da padaria, na sala de aula, na maca do hospital ou na planilha do escritório, ele opera um milagre silencioso. Enquanto os governantes decretam o caos com a caneta, o cidadão comum costura o tecido do mundo com as próprias mãos. Cada vez que alguém escolhe responder àgrosseria com paciência, cada vez que um professor insiste em ensinar apesar do salário vil, cada vez que um trabalhador cumpre seu dever com honestidade sabendo que o topo da pirâmide está corrompido, a ignorância perde uma batalha. É uma guerra de guerrilha espiritual. Quem governa pode ter o microfone, as Forças Armadas e o orçamento oficial. Mas o ser humano comum tem a micropolítica do afeto e a resistência obstinada do bom senso. Viver com dignidade sob o peso de lideranças medíocres é um ato de rebeldia poética. É dizer, sem precisar gritar: "Vocês podem governar o território, mas não vão colonizar a minha inteligência, nem anestesiar a minha humanidade." Ao final do dia, quando o sol se põe e as luzes dos palácios governamentais continuam acesas — alimentadas por privilégios —, o homem comum deita a cabeça no travesseiro. Ele sabe que sobreviveu. Mais do que isso: ele manteve o mundo girando apesar daqueles que deveriam guiá-lo. Amanhã o despertador vai tocar de novo. E, contra todas as estatísticas e desilusões políticas, a humanidade vai levantar mais uma vez. Se isso não for fé, nada mais é. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 22/09/2026
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