SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

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O Dia em que o Palhaço Rachou o Picadeiro

O Brasil não escolheu um caminho; o Brasil escolheu o grito. O que vimos desaguar nas urnas não foi a vitória reluzente de uma ideologia, mas a ressaca profunda de um país exausto. Não venham os analistas de gravata e os marqueteiros de fone de ouvido nos explicar o resultado com planilhas e porcentagens. O buraco é mais embaixo, na boca do estômago. Nem Lula, com sua nostalgia de um passado que já não cabe no presente, nem a direita, com seu messianismo barulhento e promessas de um futuro milagroso que nunca chega. O eleitor cansou de ser figurante de um Fla-Flu mental que só interessa aos palácios de Brasília. O voto foi um tapa de luva — ou melhor, um soco de realidade — na cara de toda a classe política.

O Brasil real não tem tempo para o fetiche da polarização; o Brasil real está ocupado demais tentando não enfartar na fila do osso e acorda com o despertador gritando às cinco da manhã. Enquanto os semideuses de Brasília e os profetas de condomínio travam suas guerras de hashtags regadas a vinho importado, o cidadão comum opera o milagre diário de sobreviver a uma economia que derrete como gelo no asfalto do subúrbio.

O eleitor que apertou o botão na urna eletrônica com o ódio de um escorpião acuado é o sujeito que passa duas horas com a axila de um desconhecido colada na sua cara em um ônibus lotado, olhando pela janela embaçada e calculando mentalmente se o dinheiro vai dar para o arroz, o feijão e o óleo de soja até o fim do mês. Ele não quer saber se o comunismo vai voltar ou se o fascismo está na esquina; ele quer saber por que o preço do desodorante subiu tanto que virou item de luxo. Para ele, tanto faz se a incompetência veste vermelho ou verde-e-amarelo. Quando o filho arde em febre na UPA e não tem médico, a dor não tem partido político. A verdade é que a maquiagem ideológica derreteu na primeira poça de lama de uma rua sem saneamento básico.

A fúria das urnas foi o vômito coletivo de uma indigestão que já dura décadas. É a raiva visceral de quem vê o fígado da saúde pública ser devorado por parasitas políticos, enquanto o próprio fígado do trabalhador se corrói de ansiedade ao olhar o saldo bancário. O cidadão cansou de pagar uma das cargas tributárias mais altas do mundo para receber em troca o medo de tirar o celular do bolso no ponto de ônibus. O brasileiro descobriu que pagar imposto neste país é como financiar o banquete dos canibais que vão te comer no jantar. Quando a uretra da burocracia estatal espreme o trabalhador até arrancar dele o último centavo, o cidadão se cansa de ser o emoji de palhaço na foto oficial do governo. O voto não foi um manifesto intelectual ou um ato de cidadania iluminada; foi um beliscão doloroso no traseiro flácido de uma elite que achava que o povo continuaria sorrindo enquanto era tosado. Foi o triunfo do cansaço sobre a demagogia.

A ressaca de segunda-feira é o grande equalizador da nossa comédia humana. Passada a febre dos santinhos espalhados pela calçada e os discursos vitoriosos de quem, na verdade, não venceu nada, o circo desarma a lona e o palhaço — que continua sendo você, meu caro leitor — volta para o picadeiro da sobrevivência. No dia seguinte ao sacolejo das urnas, os messias de gravata já estão combinando o rateio dos ministérios e os jantares de conciliação com o mesmo inimigo que juravam decapitar na véspera. O poder tem o estômago forte e a memória curta; engole a própria saliva, cospe na cara do eleitor e chama de governabilidade. Nada muda no cardápio da elite: eles ficam com o filé mignon dos fundos partidários e nós continuamos com o osso duro da realidade, roendo as unhas e torcendo para o pneu do ônibus não furar na terça-feira. As urnas não coroaram ninguém. Elas apenas emitiram um aviso de incêndio. Quem não entender a raiva que subiu do asfalto será devorado por ela amanhã.

O eleitor brasileiro não mudou o país com o voto; ele apenas provou que, até para ser feito de otário, existe um limite de velocidade.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 05/10/2026
Alterado em 05/10/2026
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