

Crônica: O Pavio Francês e o Eco Europeu Os paralelepípedos de Paris têm memória, e ela costuma ser barulhenta. Quando as ruas da França se acendem, o resto do continente ajusta as cortinas e espia pela janela, sabendo que as faíscas cruzam fronteiras sem pedir passaporte. O outono de 2026 trouxe de volta aquele velho conhecido calafrio europeu: uma insatisfação profunda que começou no giz das lousas, ganhou as salas de aula vazias por falta de professores e, num estalar de dedos, fundiu-se ao grito sufocado contra o custo de vida inflacionado e o encarecimento severo dos combustíveis. Há uma ironia cortante circulando nos panfletos digitais da juventude que lidera as passeatas: “Vamos pôr fim à era contemporânea”. O paradoxo é brilhante e assustador, pois foi a própria Revolução Francesa, em 1789, que inaugurou essa era na linha do tempo da humanidade. Ao resgatar esse imaginário sob o impacto de uma economia em fratura — sufocada por uma dívida pública de 119% do PIB que faz o país pagar juros mais altos do que a Grécia ou a Itália e espanta a confiança dos investidores —, a nova geração sinaliza que as velhas estruturas institucionais já não dão conta das promessas de bem-estar. O estopim inicial partiu claramente das fileiras da esquerda estudantil e sindical, liderada por movimentos como a França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon, que canalizou a fúria contra os cortes nos investimentos na educação e a perda de direitos sociais. No entanto, o incêndio foi imediatamente capitalizado pela extrema-direita de Marine Le Pen e Jordan Bardella, que transformou o debate em um clamor por segurança interna e soberania nacional, culpando a imigração e o desarmamento moral das forças policiais pela onda de saques, viaturas carbonizadas e as quase duas mil prisões que transformaram praças históricas em zonas de guerra. No centro desse fogo cruzado, os serviços públicos definham: enquanto os hospitais operam no limite absoluto com uma saúde pública precarizada por severos cortes de despesas orçamentárias e falta de infraestrutura, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu e o presidente Emmanuel Macron tentam desesperadamente costurar o orçamento de 2027 diante de um mercado financeiro em pânico e de um ministro do Interior que enfrenta distúrbios de caráter insurrecional em Paris, Marselha, Lille e Lyon. Mas a Europa funciona como uma imensa caixa de ressonância, e o contágio social se torna inevitável. Atos contra a carestia começam a se espalhar por outras capitais europeias, onde os cidadãos compartilham exatamente das mesmas dores: contas de luz impagáveis, sistemas de saúde exaustos, temores sobre a segurança urbana e a sensação de que a liderança política caminha descolada da realidade. Bruxelas assiste ao desgaste econômico e à ingovernabilidade de um de seus principais pilares com o temor de que a instabilidade alimente discursos extremos antes das próximas eleições presidenciais de 2027. Quando a França espirra, a Europa inteira pega um resfriado; desta vez, contudo, o diagnóstico parece ser o de uma febre persistente, que questiona o próprio contrato social que mantém as democracias europeias de pé. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 18/10/2026
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