

ALÉM DE LULA E BOLSONAROO jogo oculto da políticaA política brasileira parece aprisionada em uma disputa interminável entre direita e esquerda, entre Lula e Bolsonaro, entre aqueles que se apresentam como salvadores da pátria e aqueles que são apontados como seus maiores inimigos. Mas será que o verdadeiro jogo político se resume a essa disputa? Talvez estejamos olhando apenas para a superfície de um oceano cujas profundezas poucos se dispõem a investigar. O sistema de poder não se limita à direita ou à esquerda. A polarização é apenas sua face mais visível. Sob ela, existe uma complexa engrenagem de interesses econômicos, políticos e institucionais que frequentemente permanece em funcionamento, independentemente de quem vença as eleições. Direita e esquerda comportam-se como polos de um mesmo ímã: atraem, repelem, dividem e mobilizam multidões. Entretanto, embora defendam projetos distintos, ambas disputam espaço dentro de estruturas de poder que nem sempre conseguem ou desejam transformar. E assim, enquanto a sociedade se divide, a engrenagem continua girando. Votar, portanto, não significa apenas escolher um candidato. Significa participar de um processo coletivo, depositando expectativas, esperanças e, sobretudo, confiança em determinado projeto de poder. O problema não está no voto. Está na ausência de consciência que, tantas vezes, acompanha esse ato. Quem vota movido exclusivamente pelo medo, pelo ódio, pela paixão cega ou pela manipulação das narrativas pode acabar fortalecendo justamente aquilo que acredita combater. A verdadeira questão não é simplesmente votar ou deixar de votar. A questão fundamental é: em que estado de consciência tomamos nossas decisões? Enquanto milhões de brasileiros discutem quem é o salvador e quem é o vilão, questões estruturais permanecem à espera de soluções. A desigualdade social resiste. Os privilégios sobrevivem. Interesses particulares frequentemente se sobrepõem ao bem comum. Narrativas disputam a opinião pública, e crises, reais ou exploradas politicamente, podem servir de justificativa para ampliar mecanismos de controle. Nesse cenário, a polarização pode funcionar como uma poderosa cortina de fumaça. Não porque as diferenças ideológicas sejam inexistentes, mas porque o confronto permanente entre elas pode desviar a atenção daquilo que deveria ser verdadeiramente discutido: a natureza do poder, seus beneficiários e os mecanismos que asseguram sua continuidade. Talvez o maior triunfo de um sistema de poder seja convencer a sociedade de que seus únicos caminhos possíveis já estão previamente definidos. De um lado, os que enxergam a salvação. Do outro, os que anunciam a destruição. E, entre ambos, um povo frequentemente convocado a escolher adversários, quando deveria estar discutindo projetos de nação. Uma consciência desperta não se transforma facilmente em instrumento de um polo contra o outro. Ela observa o tabuleiro inteiro. Compreende que a política não se resume aos nomes estampados nas urnas, aos discursos inflamados ou às bandeiras levantadas nas manifestações. Percebe que o poder também se exerce pela influência sobre as emoções coletivas, pela seleção das informações, pela fabricação de consensos e pela exploração dos nossos medos. Em vez de aceitar narrativas prontas, questiona. Em vez de reproduzir palavras de ordem, reflete. Em vez de transformar o adversário político em inimigo pessoal, procura compreender os interesses que alimentam o conflito. E, sobretudo, pergunta: Quem realmente ganha quando desperdiçamos nossa energia combatendo uns aos outros? Despertar politicamente não significa tornar-se apolítico, indiferente ou descrente da democracia. Muito pelo contrário. Significa compreender que a democracia exige mais do que o exercício periódico do voto. Exige discernimento, independência intelectual, participação consciente e coragem para questionar até mesmo aqueles com quem concordamos. A liberdade de pensamento começa quando deixamos de terceirizar nossa consciência. Não precisamos abandonar nossas convicções. Precisamos impedir que elas se transformem em prisões. Porque nenhum líder político, por mais carismático que seja, deveria ocupar o lugar da consciência de um povo. Talvez o maior obstáculo à transformação de uma sociedade não esteja apenas naqueles que exercem o poder, mas também na dificuldade coletiva de questionar as estruturas que o sustentam. Durante muito tempo, aprendemos a escolher lados. Poucas vezes fomos estimulados a compreender o tabuleiro. Eis a questão que deveria inquietar a consciência nacional: de que adianta substituir os ocupantes do poder se permanecemos incapazes de examinar criticamente suas regras, seus privilégios e suas contradições? O despertar de um povo não acontece por decreto, tampouco pela vontade de um líder. Nasce silenciosamente, quando cada cidadão começa a desconfiar das verdades absolutas, a questionar os discursos convenientes e a compreender que nenhuma ideologia possui o monopólio da razão. É nesse instante que a consciência deixa de ser espectadora e passa a exercer seu verdadeiro protagonismo. Porque o poder pode conviver confortavelmente com uma sociedade dividida. Mais difícil é conviver com uma sociedade que pensa, questiona, fiscaliza e exige respostas. Lula e Bolsonaro passarão. Outros nomes ocuparão seus lugares. Mas a pergunta permanecerá: continuaremos escolhendo apenas os jogadores ou finalmente começaremos a questionar as regras do jogo? Afinal, a verdadeira emancipação política de um povo começa quando sua consciência se torna maior do que seus líderes. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 25/10/2026
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