

O beijo que nunca chega Há esperas que envelhecem a alma antes que o tempo marque o rosto. O beijo que nunca chega. O abraço que não vem. A vontade de repousar no peito de alguém e, por alguns instantes, deixar de sustentar o mundo sozinho. A ausência tem um peso estranho: ninguém a vê, mas quem a carrega sente até nos gestos mais simples. Na mão que ensaia um carinho e recua. Na porta que se abre sem despertar alegria. No boa-noite que encerra o dia sem aproximar duas vidas. Às vezes, bastaria tão pouco. Um beijo sem pressa. Um abraço que demorasse o suficiente para o corpo acreditar que encontrou abrigo. Mas esse pouco, quando precisa ser pedido todos os dias, torna-se uma imensidão. E assim vamos adiando a própria ternura, inventando justificativas para quem nunca se aproxima, confundindo paciência com o abandono de nós mesmos. Até que uma pergunta rompe o silêncio: quanto de uma vida podemos entregar à espera de um gesto? Amar também exige coragem para ouvir a resposta. Para reconhecer que compreender o outro não pode significar esquecer indefinidamente o que nos faz falta. Porque há um momento em que os braços se cansam de permanecer abertos. Então se recolhem, devagar, levando consigo tudo o que ainda desejavam oferecer. E o beijo, quando finalmente chega, pode encontrar apenas o rosto de quem já aprendeu a partir. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 25/10/2026
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