SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

A PROMESSA É DELES. A CONTA É NOSSA.

Na segunda-feira, a máquina recusou o cartão.

O homem passou de novo, esfregou o chip na camisa e olhou para a moça do caixa com aquela expressão de quem foi injustiçado pela tecnologia. Atrás dele, uma senhora segurava dois tomates e uma bandeja de carne. Ninguém estava com disposição para discutir o futuro do país. Era preciso resolver o presente, que custava cento e oitenta e sete reais e quarenta centavos.

Na televisão pendurada sobre as bebidas, um político falava em esperança.

Achei uma falta de educação.

O sujeito estava ali, tentando pagar o almoço da família, e o outro oferecendo o horizonte. Horizonte não passa na maquininha. Experimente colocar uma perspectiva de crescimento no lugar do feijão para ver a reação das crianças.

Na última semana, porém, dinheiro parecia coisa sem importância. Havia para tudo. Cada discurso abria mais uma torneira. Saúde, segurança, emprego, moradia, crédito, aumento, desconto. O país era uma casa em construção na qual o empreiteiro garantia piscina, elevador e churrasqueira sem perguntar o tamanho do terreno.

E nós, em volta da maquete, escolhendo a cor da piscina.

Tenho uma curiosidade quase doméstica diante dessa abundância: quem vai pagar?

Não precisa responder com uma tese. Basta apresentar a conta. Quanto custa? De onde vem? O que deixa de ser feito para que isso seja entregue? Perguntas simples, dessas que um casal faz antes de trocar a geladeira e que, no debate político, parecem uma conspiração contra a felicidade nacional.

O eleitor pergunta pelo preço e logo aparece alguém ofendido:

— Você é contra o povo?

Não, meu caro. Sou a favor de que o povo saiba quanto estão comprando em seu nome.

Porque o povo tem essa função extraordinária na política brasileira: autoriza a festa, trabalha durante a festa, limpa o salão e ainda recebe a cobrança do bufê. Os convidados mais ilustres vão embora antes, em carros que ele também ajuda a abastecer.

Repare na transformação de vocabulário. Antes da eleição, o governante diz “eu vou dar”. Depois, diz “nós precisaremos fazer um esforço”.

O benefício tem autor. O sacrifício é coletivo.

Ninguém sobe ao palanque para anunciar:

“Meus amigos, pretendo realizar uma série de coisas boas, mas algumas vocês pagarão agora, outras seus filhos pagarão depois, e algumas, francamente, ainda não sei como financiar.”

Um homem desses perderia a eleição. Talvez ganhasse o respeito do contador.

Também seria confortável atribuir tudo à desonestidade de quem promete. O problema é que há uma plateia pedindo bis. Cobramos responsabilidade para o país e uma exceção para o nosso caso. Condenamos o privilégio alheio com uma severidade que desaparece quando alguém sugere examinar o nosso.

O sujeito quer menos despesa, desde que preservem sua vantagem. Quer serviços melhores, desde que o dinheiro venha de um grupo do qual ele não faça parte. Quer acabar com as indicações, mas ficou de entregar o currículo do sobrinho.

Existe uma pequena repartição de interesses dentro de quase todo discurso sobre o bem comum.

Enquanto isso, a vida cobra sem cerimônia. O aluguel vence. O remédio acaba. A escola manda o boleto. O dono da oficina telefona para dizer que encontrou outro problema no carro. Na vida particular, uma promessa não suspende o vencimento. Na vida pública, às vezes, consegue adiar a conversa por anos.

E há contas que chegam sem papel timbrado.

Chegam no preço que subiu entre uma compra e outra. Na consulta que ficou para o mês seguinte. Na rua que continua esburacada porque o recurso tomou outro rumo. Na professora comprando material com o próprio salário. Quem paga nem sempre recebe um boleto; às vezes recebe um serviço pela metade.

É justamente por acreditar na necessidade de hospital, escola e amparo a quem precisa que eu gostaria de ouvir menos milagres e mais explicações. Uma promessa séria deveria aguentar cinco minutos de perguntas sem chamar o entrevistador de inimigo.

Mas terminada a campanha, começa o grande serviço de tradução.

O que era urgente passa a depender de estudos. O que estava garantido exige negociação. O que seria imediato precisa respeitar uma transição. Descobre-se, com espanto teatral, que existe orçamento, existe Congresso, existe dívida, existe uma realidade bastante inconveniente funcionando fora do estúdio.

A realidade, aliás, tem péssima comunicação. Não sorri, não abraça ninguém e não oferece jingle.

No supermercado, o homem acabou dividindo a compra. Pagou uma parte no cartão, outra no dinheiro, e pediu que tirassem dois produtos. A moça chamou o supervisor para cancelar. Ele evitou olhar para a fila.

Na televisão, vieram os aplausos.

A senhora dos tomates se aproximou do caixa. Conferiu o preço da carne e pediu que tirassem também.

Saí pensando que a pergunta do título talvez estivesse mal formulada.

Quem vai pagar a conta nós já sabemos.

Falta saber o que teremos de devolver no caixa.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 26/10/2026
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