SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

AMANHECI COM UMA AUSÊNCIA

Já vi candidatos perderem. Já vi candidatos ganharem. Conheço a frase com que tentamos devolver as coisas aos seus lugares: perdeu, ganhou, vida que segue.

Hoje, porém, a vida seguiu e alguma coisa em mim ficou para trás.

Acordei meio aéreo. Fiz os primeiros movimentos do dia com a impressão de estar chegando à minha própria casa depois de uma longa ausência. Tudo estava onde deveria estar. Ainda assim, havia algo fora do lugar, e eu não sabia se procurava ao redor ou dentro de mim.

Desde o resultado de ontem, carrego a sensação de ter perdido alguma coisa que não sei nomear. Tento encontrá-la nas notícias, nas conversas, no que penso sobre o país. Nenhuma explicação me satisfaz inteiramente.

Talvez porque eu esteja procurando uma explicação política para uma tristeza que já atravessou essa fronteira.

Há uma parte da nossa vida que depositamos no futuro sem perceber. Fazemos planos, suportamos decepções, adiamos certos desalentos porque conservamos a ideia de que, adiante, alguma coisa poderá tomar outro rumo. Até que uma noite termina e descobrimos quanto de nós estava comprometido com essa possibilidade.

A apuração acaba. O investimento íntimo permanece.

Penso nos anos que ainda desejo viver, nos meus filhos, no mundo que continuará depois de mim. Penso no esforço de tanta gente para construir uma existência digna. E me pergunto de onde vem este cansaço, como se eu tivesse passado a noite tentando sustentar uma porta que, por fim, se fechou.

Talvez haja também uma solidão nisso. A de perceber que a mesma notícia que nos deixa em silêncio leva alguém a abrir uma garrafa, abraçar os seus e agradecer. Enquanto uns encontram motivos para celebrar, outros precisam descobrir o que fazer com o dia seguinte.

Não posso exigir que sintam o que sinto. Mas tampouco consigo ordenar a mim mesmo que não sinta.

Reconheço o resultado. Reconheço o direito de quem escolheu diferente. A maturidade, contudo, não me tornou imune à decepção. Apenas me ensinou a não transformar toda dor em acusação.

Por isso hoje falo baixo. Desconfio das palavras que me chegam prontas, das certezas inflamadas, das frases que oferecem um inimigo para poupar o trabalho de compreender uma ferida.

Quero saber o que, de fato, me aconteceu.

Talvez eu tenha perdido uma expectativa. Talvez tenha encontrado um medo que já existia e que, até ontem, eu conseguia manter à distância. Talvez esteja sentindo o peso dos anos: quando somos mais jovens, quatro anos parecem uma espera; depois, começamos a perceber quanto de uma vida cabe dentro deles.

O café esfriou enquanto eu pensava. Havia coisas a resolver, mensagens chegando, compromissos. Levantei e fui cuidar do que me cabia. Fiz tudo um pouco mais devagar.

Vida que segue, eu sei.

Só não sei ainda o que ficou naquela noite — e por que, desde que acordei, sinto tanta falta.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 26/10/2026
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