

Pátria amada, saída de emergência “Não abandonarei vocês!” A plateia chora. O assessor consulta os voos. A rapidez da saída de Flávio Bolsonaro depois da derrota tem esse efeito desagradável: enquanto o eleitor ainda procura uma explicação para o resultado, começa a procurar também o candidato. A urna nem esfriou e a discussão nacional já envolve passaporte. É uma mudança brusca de assunto para quem passou meses ouvindo falar em coragem. Na campanha, coragem é uma palavra barata. Cabe em camiseta, adesivo, discurso de caminhonete. Depois da eleição, pode exigir coisas menos fotogênicas: permanecer, responder perguntas, conversar com os derrotados, suportar o próprio país quando ele não faz a nossa vontade. Aí o patriotismo começa a sentir um calor insuportável. Precisa de ar-condicionado. De preferência na Flórida. O eleitor fica aqui, com o vizinho que ofendeu, o cunhado que bloqueou e a prestação da bandeira que comprou no cartão. Vai ter de reencontrar todos eles na padaria. O líder dispõe de uma solução diplomática para esse constrangimento. É uma divisão de tarefas admirável: a militância enfrenta o grupo da família; o chefe enfrenta a imigração. Ainda assim, haverá quem encontre grandeza no vexame. A cobrança vira perseguição; o deslocamento vira missão; o sujeito que devia uma satisfação aparece promovido a personagem geopolítico. Hollywood cobra caro por uma transformação dessas. Aqui, o serviço é feito voluntariamente nas redes sociais. É preciso reconhecer a competência do departamento de figurino. O patriotismo de palanque veste muito bem. Verde, amarelo, uma indignação cuidadosamente passada a ferro. O problema aparece quando se pede ao proprietário que use a roupa fora da cerimônia. A pátria exige manutenção. Tem oposição, investigação, derrota, pergunta inconveniente. Não basta abraçá-la diante das câmeras e depois mandar notícias do exterior. Nesse casamento, o eleitor costuma ficar com os filhos e as dívidas. Ainda haverá quem chame tudo isso de estratégia. A palavra é um lubrificante maravilhoso: passa-se um pouco sobre qualquer explicação e ela entra sem fazer barulho. Esperar é estratégia. Desaparecer é estratégia. Dizer ontem o contrário do que se faz hoje é uma estratégia que nós, pobres mortais, não alcançamos. O eleitor é convidado a demonstrar inteligência justamente quando desiste de entender. A rapidez talvez seja a parte mais reveladora dessa comédia. A promessa de permanecer exige uma frase. A saída exige providências. E o brasileiro, abandonado diante da televisão, começa a desconfiar de uma coisa terrível: enquanto ele acreditava no discurso, alguém talvez já estivesse cuidando da logística. A bandeira continua na janela. O vento, esse desgraçado sem filiação partidária, insiste em agitá-la. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 28/10/2026
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