

CADA NOITE, UM DESTINO Bastou alguém dizer “pombas!” para que eu voltasse a Catanduva. A memória tem dessas coisas. A gente passa anos tentando recordar um nome e, de repente, uma palavra antiga abre uma cidade inteira dentro da cabeça. Vieram a quermesse da Paieta, os bailes no Sindicato, a Disco Magic, as brincadeiras dançantes, as saídas para as cidades vizinhas. E vieram os amigos: Eder, Limone, Humberto, Beto, Nascimento… Pronto. A turma estava reunida outra vez. Não me perguntem a ordem das noites. A juventude não exigia ata, assinatura nem reconhecimento de firma. Algumas saídas eram combinadas; outras começavam sem destino e adquiriam endereço conforme a conversa avançava. — Vamos aonde? Essa pergunta podia render uma noite inteira. Havia sempre uma possibilidade, um baile, uma cidade ali perto. E, quando ninguém tinha ideia melhor, a própria falta de ideia já era um excelente começo. Ouvíamos Chico Buarque, Gilberto Gil, Nara Leão, MPB4 e tantos outros. Havia canções que acompanhávamos pela melodia; outras iam revelando seu sentido conforme a vida avançava. Entre uma conversa e outra, uma voz no rádio podia fazer a turma cantar junto ou alguém pedir silêncio para escutar melhor. E lá íamos nós, sem lenço e sem documento, com aquela disposição de quem ainda não precisava saber exatamente aonde a estrada ia dar. Paixão? Calma lá! Outro dia, quando comecei a contar essas histórias, já quiseram enfiar um romance no meio. Não precisava. A gente queria era curtir a noite. Dançar, brincar, encontrar conhecidos, rir de alguma bobagem que, repetida pela pessoa certa, ficava ainda mais engraçada. Nem toda juventude precisa de uma grande história de amor para merecer ser lembrada. Às vezes, basta uma boa turma e pouca vontade de ir para casa. E havia o Carnaval. Ah, o Carnaval! O de rua, em Catanduva, e os bailes. Cada noite, um destino. O calendário marcava os dias; nós cuidávamos do restante. Hoje, para sair, é preciso conferir previsão do tempo, reservar mesa, calcular estacionamento, consultar o aplicativo, carregar o telefone. Naquele tempo, a pergunta era mais curta: — Vamos? E íamos. Às vezes, o encerramento da noite ainda sofria uma alteração de percurso e acabávamos na zona. Pois é. O memorialista também tem direito a rir enquanto escreve. Não vou transformar a turma em congregação de santos agora que todos envelhecemos. Seria uma injustiça com a verdade — e uma falta de respeito com o Carnaval. No meio dessas lembranças, porém, há um lugar onde minha memória demora um pouco mais. O Boteco do Wilson. Wilson conhecia todo mundo. Entrava na prosa, fazia parte daquele convívio. Seu nome ficou tão ligado ao lugar que ainda hoje basta pronunciá-lo para a conversa mudar de temperatura. Wilson morreu cedo, coitado. Quando lembro disso, a risada baixa um pouco. Há pessoas que parecem pertencer tão naturalmente a um lugar que a gente nunca imagina aquele lugar sem elas. O dono atrás do balcão, a voz conhecida, o jeito de receber. Tudo parece garantido para a próxima vez. Até que a próxima vez chega diferente. Fico pensando se o Wilson imaginava que, tantos anos depois, ainda seria lembrado numa conversa sobre as coisas boas da vida. Talvez estivesse apenas trabalhando, atendendo, conversando. Nós, apenas passando mais uma noite ali. Nenhum de nós sabia que aquilo ficaria. Eder, Limone, Humberto, Beto, Nascimento… Escrever esses nomes me dá vontade de interromper a crônica para contar um caso. Depois outro. A memória vai puxando assunto, como se alguém tivesse acabado de chegar e arrastado uma cadeira. Não acho que tudo fosse melhor naquele tempo. Havia dificuldades, havia problemas, havia muita coisa que nossa pouca idade ainda não alcançava. Mas era bom estar ali. Isso eu sei. Era bom ter os amigos, a música, os bailes e aquela disposição que não precisava de justificativa. Talvez seja por isso que sinto saudade até das noites em que nada de extraordinário aconteceu. Saímos, conversamos, rimos e voltamos para casa. Só isso. Na ocasião, parecia pouco. Hoje, eu gostaria de repetir. Se me dessem uma dessas noites de volta, não pediria uma festa inesquecível. Podia começar no Boteco do Wilson, com a turma chegando aos poucos e uma dessas canções tocando ao fundo. Eu esperaria todos se acomodarem, olharia bem para o Wilson e deixaria a conversa correr. Até alguém perguntar: — Vamos aonde? Dessa vez, eu demoraria um pouco mais para responder. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 29/10/2026
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